AUTHOR: Marcos Oliveira TITLE: 8/30/2004 09:51:07 PM DATE: 8/30/2004 09:51:07 PM CATEGORY: Nenhum —– BODY: Sobre águas e bicicletas




"Me cansei dos teus desenganos...
Não entendo a tua fala.
Nossa casa está vazia
Hoje a noite é o meu dia.
Nossa vida virou novela,
E eu não sou nenhum personagem
Que se enquadre em teus delírios.
Quero andar nas ruas e sentir frio.
No calor quero estar sozinho..."


Sonhos não combinam com dias quentes e muito menos com apótemas de pirâmides. Por mais que eu soubesse da impaciência do Sacana, não estava preparado para ser seu brinquedinho ainda. Dessa vez não foi engraçado, aposto, nem pra Ele. Duvido que riu em algum momento. E o céu de Setembro é o mais lindo de todos... Pena. Eu me odeio por acreditar em mim mesmo.

Sabe quando a luz do sol reflete nas nuvens de um jeito diferente e tudo fica misturado entre um tom laranja e púrpura no fim de tarde? Então, assim é Setembro. Sempre cheio de surpresas e sensações novas. Pior é que essas últimas noites de Agosto anunciam um dos mais perfeitos céus em Setembro. Aquele Exibicionista está preparando algo muito bom pra mim ou perdeu totalmente o senso das coisas. Esse céu é o mesmo de 5 centímetros atrás. É o mesmo daquele tempo de memoráveis disputas entre Eric Clapton e Renato Russo no meu quarto. Aliás, nunca entendi os cavalos-marinhos...

Há uns bons 5 dias tenho tentado entender os motivos que levariam o Sacana a trazer esse céu outra vez. Realmente não está batendo muito com o contexto passado. Bem... se Ele queria me fazer de fantoche outra vez, não foi muito legal. Não gostei. Setembro, de uma certa forma, é imaculado pra mim. Graças ao Exibicionista me desprezei como pessoa e, graças à outra pessoa, vi que era idiotice.

Não sei o que vai acontecer de amanhã em diante. O teatrinho cósmico Dele vai continuar, disso eu tenho certeza. Só espero que não reclame se minhas bicicletas ainda estiverem sólidas e prontas para continuarem rodando por mais um belo Setembro púrpura. —– ——– AUTHOR: Marcos Oliveira TITLE: 8/20/2004 08:11:56 PM DATE: 8/20/2004 08:11:56 PM CATEGORY: Nenhum —– BODY: Perfeitas Letras




Nada poderia fazer se
Amar você eu não pudesse,
Ter você eu não tivesse...
Até mesmo respirar seria impossível
Longe de tão pura beleza.
Invernos seriam eternos...
Amargos seriam meus sonhos.
Feridas se formariam
Enquanto estivesse longe de você.
Rasgaria céus,
Nadaria oceanos...
Apenas para ouvir sua voz.
Noites seriam meus dias
Dias seriam minhas noites
Até o momento que eu lhe beijasse.
Deusa dos meus sonhos,
Eterna rainha de prata...
Luar claro em minha praia...
Irei te amar, meu anjo.
Mais e mais...
Amanhã e sempre. —– ——– AUTHOR: Marcos Oliveira TITLE: 8/12/2004 12:06:57 AM DATE: 8/12/2004 12:06:57 AM CATEGORY: Nenhum —– BODY: E assim falou o Sacana




- Ei, você de roxo, vem cá.
- ... eu?
- Quer que Eu escolha outro? Eu escolho...
- Não! Não! Pode falar, Chefe...
- Entrega essa carta. Em mãos. Entendeu?
- Carta... em mãos. Tá. Mas...? Carta, Chefe?
- É. Um camarada Meu.

Os anjos vestidos de roxo são os novatos. Geralmente eles ficam rondando a sala do Exibicionista pra conseguir uns bicos ou ter a sorte de tomar um sermão gratuito. Tomar um sermão do Chefe quando se veste aquela batininha roxa conta muito no currículo angelical. E lá foi o calouro, feliz e entusiasmado, descer os infinitos degraus da Heaven Corporation.

Quando chegou por aqui chovia bastante. Claro, a carta estava muito bem protegida. Era noite, bem tarde. Um frio de congelar a aréola. As ruas estavam vazias e o anjo não sabia onde encontrar o "Depois da igreja, na rua do açougue, casa cor-de-areia, segundo andar, quarto com a porta com certeza fechada". Chacoalhou as asas, fez cara de determinado e alçou um vôo sem rumo.

Não muito longe dali, na casa cor-de-areia, exatamente no quarto com a porta fechada, o Marcos procurava motivos para a avalanche de dúvidas e sentimentos que atormentavam-no. Ele já havia apagado o sorriso e o olhar penetrante da parede, mas as sombras do grafite continuavam ali. Ele já havia guardado os retratos e as cartas, mas as gavetas sempre estão abrindo e cuspindo lembranças na cara dele. O melhor seria dormir. Dormir e tentar não sonhar.

Depois de 6 trombadas em postes, 9 voltas num mesmo quarteirão e incontáveis paradas para descanso, o novato avistou uma igreja. Caminhou (sim, pois voar já não era muito possível) até o portão azul com muita dificuldade. Pra quem está acostumado com nuvens macias, asfalto molhado é quase o pátio do inferno. Aquela não era a primeira igreja que o anjo encontrava, mas desejava que fosse a última. Anjos vestidos de roxo são, no geral, preguiçosos. E esse não era exceção. Para a sorte dele, um açougue apontava na esquina de uma das ruas à frente.

Marcos estava deitado há um bom tempo. A televisão estava ligada, mas ele não via nada de interessante naqueles filmes velhos que passam na madrugada. A chuva ensaiava um belo dueto com o vento. Esse barulho maravilhoso não trazia bons pensamentos e o menino teve vontade de gritar. Bem, ele gritou. Foi um grito forte, longo. Enquanto gritava, cachorros latiam e vizinhos ainda sonolentos xingavam. Como esperado, nem adiantou muita coisa. O barulho da chuva ainda estava lá.

O anjo fez um último esforço e seguiu voando até o açougue. Ficava numa esquina cheia de cachorros alvoroçados em caixas velhas de papelão. Pareciam incomodados, pois resmungavam (anjos entendem muitas coisas...) sobre um idiota qualquer que gritou no meio da madrugada acordando todo mundo. Ignorou os palavrões e desceu a rua. "Cor-de-areia... cor-de-areia... Tá muito escuro pra diferenciar preto do branco, quanto mais outras cores..." E andou e andou. Na verdade foram poucos passos até a casa de dois andares cor-de-areia, mas anjos realmente não combinam com asfalto. Só faltava entrar mesmo.

Sem aguentar mais, o Marcos resolveu levantar da cama e desligar a televisão. Quando a escuridão encobriu suas vistas sentiu-se estranhamente bem. Sensação que passou rapidamente, assim que escutou passos nervosos e arrastados do lado de fora do quarto. "Pronto! Acordei minha mãe. Não devia ter gritado..." A suposta dona dos passos parou. Ele esperava cinco raivosos e barulhentos murros na porta, mas não aconteceram. Estranhou e chegou mais perto dela para escutar.

- Ham... o Senhor Marcos encontra-se acordado?

Que voz era aquela??? Jovial, mas trêmula. Com toda certeza de alguém com muito frio. O Marcos não sabia se respondia ou se ficava como estava.

- Bem, Senhor Marcos, sei que está de pé e boquiaberto aí do outro lado. Tenho um envelope de suma importância para ser entregue em mãos ao Senhor.

Realmente ele estava boquiaberto e demorou alguns segundos para perceber que tinha que abrir a porta. Ligou a luz, destrancou a porta e abriu-a. O que viu foi até cômico: Um rapaz com cara de criança dentro de uma batina completamente ensopada. Os cabelos dourados e encaracolados estavam totalmente bagunçados. Segurava um anel gigante na mão esquerda e um envelope na outra.

- Quem é você? Como é que entrou aqui e como sabe meu nome?

- Olha, Senhor Marcos, eu não tenho uma credencial ainda. Como vê, estou de roxo. Quando estiver dentro de uma batina verde também vou estar usando um crachá com os seguintes dizeres: Rodrigo, Anjo. Eu entrei em sua residência pela porta da varanda. Antes que pergunte como, já digo. Escalei, porque essas asas aqui...

- Asas???

-... é. Asas. Não vê? Elas não aguentam mais bater. E quanto ao nome, só sei por causa da entrega.

Terminou de dizer isso e entregou o envelope ao menino. Marcos estava confuso e assustado. Virou e revirou o envelope. Olhou para o tal Rodrigo. Caramba... asas?! Voltou a atenção para o papel e viu um emblema. Um triângulo equilátero com um "H" e um "C" dentro. Ao lado, o significado: Heaven Corporation.

- Ei, Rodrigo...?

Mas o anjo havia sumido tão estranhamente como apareceu. O Marcos ainda ficou ali em pé por uns minutos tentando processar aquilo tudo. Resolveu entrar e fechar a porta para ver o que havia dentro do envelope. Sentou-se na cama, rasgou a borda esquerda com cuidado e retirou uma folha de papel cuidadosamente dobrada do envelope. Uma carta. Possuía um tom bem claro de azul e escrita totalmente em ouro. Não tinta dourada. Era ouro. "Só pode ser coisa daquele Exibicionista mesmo. Escrever uma carta toda em ouro? Onde já se viu uma coisa dessas?" E começou a ler.

Onde tudo começou, ano 13.718.000.018 d.B.B (depois do Big Bang)

Caro Marcos,

Seria hipocrisia de minha parte perguntar como você está. Afinal, Eu sei como você está. Apesar de algumas vezes me matar de tanto rir com suas confusões e caras de completo idiota, sinto que devo interceder na atual situação. Ultimamente, quando ligo os monitores aqui da minha sala, tenho visto um cara triste, confuso, ocioso e sem graça. Preciso frisar: Totalmente sem graça. Taí o motivo da intervenção.
Ter um teatro cósmico particular nem sempre é tão excitante. Eu preciso de uma ocupação mais light e divertida para poder reger... ham, tudo. Dentre tantas outras zilhões de criações minhas, escolhi você para tal "cargo". Faz idéia de como é engraçado te ver falando sozinho? Perguntando pra si mesmo se há maneira de voltar o tempo? Não... Eu acho que não faz idéia. Mas você está um saco ultimamente.
É o seguinte: Viva, mortal maldito! Eu preciso de diversão! Lembra-se da praça de alimentação? A bailarina? A felicidade com o inesquecível gosto de caramelo? Pois então? E o perfume? Pode falar... Você gostou do perfume. Quer percorrer aquele caminho de novo. Viva! É pra isso que está aí. E Eu preciso de diversão, ora bolas... De nada irá servir todo esse meu "exibicionismo" se você não expurgar esse resto de passado que existe em você. Viva, maldito. Viva!
Bem, não era minha intenção intervir tão diretamente no caso, mas agora empolguei e quero que volte a ser meu passa-tempo favorito o mais rápido possível. Vou contar-lhe um segredo e espero, mesmo com sua baixa capacidade humana (não gosto quando me chama de exibicionista. Tenho que descontar), que faça bom uso dele:
As mulheres precisam dos homens assim como peixes precisam de bicicletas. Portanto, mortal maldito, pare com esse drama sem fim. Guarde o passado. Transforme-se. Ao invés da bicicleta, seja a água.
Fico por aqui, na esperança de que as 165 gramas de ouro gastas nessa carta façam a diferença.

Onipresentemente,

Deus
Presidente da Heaven Corporation

Heaven Corporation - Desde sempre fazendo tudo o que você vê


Marcos estava perplexo. Completamente normal, visto que não se tem notícia de alguma carta como aquela. A chuva caía forte ainda, mas não incomodava tanto. Ele levantou-se, colocou a carta sobre a televisão ainda quente e apagou a luz. Caminhava lentamente até a cama quando parou de repente como se tivesse lembrado de algo. "Sacana Exibicionista. 165 gramas de ouro... Eu não vou ser marionete de divindade nenhuma".

O rapaz deitou e sentiu-se um tanto quanto relaxado. Era bom dormir mesmo. Nem importava se sonharia ou não. Quanto mais cedo acordasse, mais tempo iria ter para aprender a difícil técnica de transformar bicicletas em água.
—– ——– AUTHOR: Marcos Oliveira TITLE: 8/3/2004 06:56:13 PM DATE: 8/3/2004 06:56:13 PM CATEGORY: Nenhum —– BODY: Halloween




Nada de bruxas, nada de abóboras com sorrisos horrendos. Era apenas um perfume... Ele não viu crianças fantasiadas de fantasmas correndo em volta do coreto, nem morcegos, nem nada do tipo...

Seguiu a trilha do perfurme e encontrou um pescoço tímido que escondia-se ao mais leve dos toques. Mais à frente, uma chuva de cachos castanhos lambiam-lhe o rosto e a vontade de ficar ali por baixo era tentadora. Mesmo assim, tinha que continuar e seguir o perfume. Contornou rosto. Deslumbrou-se com o sorriso. Afogou-se na profundeza do olhar. Ironia Dele: Uma pinta estrategicamente posta abaixo de um daqueles olhos. Quase um convite, quase uma placa dizendo: "Pode olhar. É bonito mesmo."

Bolhas de sabão apostavam corrida com borboletas amarelo-sol. Perfeito, não? Mais perfeito ainda foram os anjinhos. Estavam de amarelo também (bem, foi só um anjinho), mas era um amarelo mais suave. Tipo pêssego, sabe? E nem eles aguentavam não olhar para a fonte do perfume. Era hipnotizante demais, gostoso e perfeito demais.

O frio atrapalhava um pouco, porque as mãos dele cismavam em congelar. Quis carinhar cada curva, mas as mãos não deixavam. "Não apareceu mas gosta de avacalhar, né Sacana? Onde já se viu esse frio?" Nem importou tanto... Outros detalhes mais bonitos mereciam mais atenção. O perfume por exemplo. Quam sabe não foi mesmo o perfume que causou a sensação de que os beijos paravam as fontes? Afinal, foi difícil tirar da cabeça aquele cheiro. Foi difícil acreditar que o coração não iria saltar do peito. Foi difícil parar de tremer.

Eram anjos, borboletas, bolhas de sabão, flores, beijos. Seria um sonho? Nossa... e como foi difícil parar de tremer.

E era apenas um perfume...
—– ——– AUTHOR: Marcos Oliveira TITLE: 8/1/2004 11:48:02 PM DATE: 8/1/2004 11:48:02 PM CATEGORY: Nenhum —– BODY: Just a dream




Is the love tonight? —– ——–