AUTHOR: Marcos Oliveira TITLE: 10/29/2004 11:18:30 PM DATE: 10/29/2004 11:18:30 PM CATEGORY: Nenhum —– BODY: O universo da gente ® - Segunda Parte




- Ei! E o final da história, tio Marcos?

Rá. É mesmo. Eis que está pronto. Uma super produção feita e refeita. Sentem-se e apreciem o programa.

[Flashes do último capítulo. Feito televisão]

- Aí, tudo bem. Vou até a 46ª. Nordeste dos morros, certo? Mas... quem é tu?

[Outro flash]

Era uma deusa. Oras... outra! Outra pra abusar e rir das minhas mancadas e escolhas esdrúxulas.

[Mais um flash bacana]

- Bem, eu trabalho na Heaven Corporation... E aquilo lá está uma zona.

[Flash]

- Precisamos urgentemente criar um mundo. Essa lista de palavras que você leu é um apanhado do que o mundo deve ser. É em cima delas que você deve trabalhar.

[Zoom em slowmotion no rosto abobado do Marcos]

- ...

[Fim dos flashes. Tela negra. Início da segunda parte.]

- Seria mentira se falasse que eu não estou gostando dessa história de criar mundos e tomar sorvete com deusas. Será que existe alguma condecoração? Sei lá... uma medalha por "serviços prestados para o bem-estar e equilíbrio universal", por exemplo. Eu ficaria me achando com uma dessas reluzindo no peito. Mas, ah... sei que não existem coisas desse tipo. Pelo menos pra mim. É bem capaz Dele estar se contorcendo de rir da minha cara só por eu cogitar essa possibilidade. Bem, eu tenho outras coisas pra me preocupar. Falei pra senhorita Pereira que a encomenda está pronta. Preciso entregá-la.

E lá se foi o Marcos rumo à praça escolhida pela Primavera Nana Pereira. Na verdade ele queria era voltar até o quarto rosa da deusa. Tomar sorvete outra vez, quem sabe, mas Ela insistiu em ir até a praça. Já que não adiantava discutir vontades divinas, á praça ele foi.

Lugares como praças em dias chuvosos ficam vazios. Tão vazios que se tem a horrível impressão de que ninguém, além de você, existe. Os bancos estavam molhados, cheios de florzinhas amarelas que caíram por causa da chuva. E nada dela chegar. Há quem diga que o céu cinza não tem valor nenhum. Quando se está à toa ou à espera de alguém, as nuvens de qualquer céu ficam interessantíssimas. Rostos de algodão, cachorrinhos de pelúcia. E nada dela chegar. Foi quando, numa mistura de vôo e correria, um anjo vestindo uma batina verde trombou na árvore em frente ao Marcos.

- Putz, que trombada! Você está bem? - disse o Marcos indo em direção ao anjo que ajeitava os cachos dourados.

- Sim, sim... Estou sim. Estou acostumado com esses tipos de acidente.

- Caramba! Rodrigo?

- Ham? Como você sabe o... Senhor Marcos!?

Se não era o mesmo anjo, Rodrigo, que em vez passada havia trago o primeiro documento que mudaria pra sempre a vida do Marcos. Desta vez, ele estava com a batina verde e o crachá da Heaven Corporation.

- Que coincidência! Que coincidência! Meu primeiro trabalho como anjo propriamente dito e me encontro com quem? Com o cara mais famoso do andar de cima!

- ... famoso? Como assim?

- Sua vida se tornou uma das mais assistidas depois que te entreguei aquele envelope, Senhor Marcos! Ser xodó do Poderoso tem lá suas vantagens! E olha que sorte! Senhorita Nana Pereira, minha chefinha direta, também anda falando do Senhor!

- Ah, é? O que ela tem dito... err, e cadê ela, por falar nisso?

- Bem, ela me mandou vir e te entregar esse papel. Todos os chefes de setor estavam em reunião com Ele. Um texano maluco está querendo ser líder mundial outra vez, e o pessoal não gosta muito dele não. Vão decidir se ele continua no poder ou não.

- Ham... - disse o Marcos, desolado por não poder ver o rosto primaveril de novo - Então me dê o papel.

Rodrigo estendeu-lhe a mão e entregou uma tira rasgada de papel (Ei! Cadê a formalidade perfumada daquele lugar??). O Marcos pegou e abriu-a. Dizia o seguinte:

"Caro Marcos,

Desculpe-me por não comparecer ao lugar marcado. O Chefe não ia gostar de saber que faltei à reunião para encontrar com você. Espero que tenha terminado mesmo o trabalho e não tenha mentido só para tomar sorvete de novo (entenda 'tomar sorvete de novo' como 'me ver de novo'). Bem, mande o que fez para meu e-mail nanaperera@heavencorporation.com até o fim do dia.

Beijos de borboleta,

Primavera Nana Pereira."


- Que droga! Eu vou ter que digitar aquilo tudo, Rodrigo? Não dá pra você entregar pra Ela não?

- Sinto, Senhor Marcos. Trabalhos grandes assim não podem passar em mãos de terceiros. Política da empresa. Eu tenho que ir agora.

- Espera um pouco! Como assim política da empresa? É só entregar esses papéis aqui! Você não leria, né?

- Não discuta a vontade de uma deusa, meu caro. Se eu chegar com esses papéis aí só por causa da sua preguiça, Ela ia picotar meu crachá e me mandar ser porteiro do Purgatório. Não, obrigado. Aquele lugar cheira mal. Até breve, Senhor Marcos!

Disse isso e bateu suas asas. Voou em direção ao cachorro de pelúcia cinza, que agora mais parecia uma nuvem mesmo. O Marcos ficou parado na chuva por mais uns dois ou três minutos. "Droga, droga, droga!", ele pensava. Voltar pra casa e digitar tudo que havia escrito à mão com todo o cuidado. Bela porcaria. Antes soubesse que eles também tinham e-mails. Pior, não viu aquele rosto que tanto queria ver. Belíssima porcaria.

Quando chegou em casa, largou o projeto de mundo ao lado do computador e despencou na cama. Era coisa demais pra digitar, ele não estava com vontade nenhuma para isso e uma pergunta não parava de martelar em sua cabeça. Será que o Sacana tinha ICQ ou também aderira ao MSN? Ah, ele tinha que descobrir.

[Tela negra. Créditos. Tela negra com um "to be continued" no canto inferior direito.]

- Ei, tio Marcos! Esse não é o final da história!

Eu sei, caramba. Quis fazer uma trilogia. Rá. —– ——– AUTHOR: Marcos Oliveira TITLE: 10/24/2004 05:31:33 PM DATE: 10/24/2004 05:31:33 PM CATEGORY: Nenhum —– BODY: Lágrimas e pérolas




Quando você ri os outros riem, já percebeu?
Não, moça? Então pare para perceber.
Já olhou alguém nos olhos? Sei que já. Você olhou nos meus.
Viu o que acontece? Você vasculha e chama atenção.
Bonito isso. E seu sorriso?
Seu sorriso contagia. Sério.
Quantas pessoas se encantaram com ele hoje?
Ham? Não, não é exagero. Não diga isso.
Estou apenas tomando a liberdade de te falar.
Quantas pessoas já quiseram te dizer isso?
Nenhuma? Não. Muitas, eu sei.
Muitas querem te ver sorrir.
Porque os outros querem sorrir também, sabia?
Já se pegou chorando para o espelho? Não? Pois devia.
Comprove se as lágrimas não são pérolas.
Já pensou em quantas pessoas queriam roubar essas pérolas?
Não? Pois devia também. Porque isso te faria sorrir.
Não quer sorrir? Ora, vamos.
Já pensou se parasse de fazê-lo?
Cinza, né? Feio. Pois, sorria.
Nem que for para rir desses versos ligeiros.
Apenas sorria, moça. E faça-me sorrir também. —– ——– AUTHOR: Marcos Oliveira TITLE: 10/18/2004 08:41:07 PM DATE: 10/18/2004 08:41:07 PM CATEGORY: Nenhum —– BODY: Às vezes o mar traz de volta...




Sei que devia postar a segunda parte da história, assim como sei que as imagens não estão aparecendo. O problema é que estou sem meu computador, não achei que o final da história ficou bom e estou triste mais do que devia estar.

Há pouco tempo soltei um barquinho com rosas no mar. Soltei contra minha vontade. Eu nem sabia como soltá-lo, aliás. Apenas deixei ir. O curioso é que fiquei assistindo ele sumir no horizonte, lá onde o céu toca com o mar. Ou o mar toca o céu, tanto faz. Por quê fiquei assitindo aquele barquinho? Sentar na areia para esperar era a atitude mais previsível em mim, eu sei. Sabia que às vezes o mar traz de volta.

Devem estar perguntando: "Como assim, Marcos? Não estamos entendendo nada!". Pois bem. Nem eu.

Ah! Descoberta nova: Milímetros podem ser gigantes. O essencial para se medir é sempre o ponto de vista. —– ——– AUTHOR: Marcos Oliveira TITLE: 10/13/2004 04:37:54 PM DATE: 10/13/2004 04:37:54 PM CATEGORY: Nenhum —– BODY: O universo da gente ® - Primeira Parte




[Modo tentando-ser-indiferente-e-mentiroso-diante-das-coisas ligado]

Acho que há um complô divino contra minha pessoa. Essa última do andar de cima foi, no mínimo, hilária. Fico imaginando como deve ser o prédio da Heaven Corporation pra recorrerem a mim desse jeito. Não... eu não imagino. Tenho certeza que é uma zorra de anjos subindo e descendo escadas infindáveis. Papéis por todos os lados precisando da assinatura deste ou daquele santo. Uma zorra. Uma zorra tão zoneada que o Exibicionista às vezes não suporta a demanda dos pedidos de outras divindades. E sobra pra quem? Ham? Hein? Pra mim, ora bolas. A marionete preferida Dele. E como assim criar um mundo pra ela? Como assim?

[Modo tentando-ser-indiferente-e-mentiroso-diante-das-coisas desligado]

Ok. Nem foi assim. O Sacana nem tem muita coisa a ver com isso. O fato é que algo inusitado aconteceu e estou bestificado até agora. Eu com certeza já devia ter me acostumado com cartas d'ouro e apelações de quem tudo pode, mas realmente estou bestificado com a mágica do pedido.

O dia estava quente. O sol tinha preguiça de caminhar pelo céu, o que deixava tudo muito mais difícil de se fazer. Andar era difícil, se esforçar era burrice, olhar para o chão quente dava trabalho. Contudo, porém, todavia, no entanto, o Marcos tinha compromissos importantes naquele dia. Na verdade ele não sabia bem o que era. Uma voz de veludo havia marcado, do nada, um encontro:

- Aí, tudo bem. Vou até a 46ª. Nordeste dos morros, certo? Mas... quem é tu?
- Ah... isso é o de menos. Te procurei porque me disseram que trabalhava bem. Tenho algo pra você.
- ...
- Pode ser?
- ... ok.

Trabalhava bem no quê?? Tinha algo pra mim? Lindo. Mas, ele foi conferir. Já que disseram que trabalhava bem, devia fazer valer a confiança depositada. E fui.

Suando em bicas, segurando uma rosa cor-de-rosa e com uma preguiça descomunal. Visão deplorável. Antes ela (sim, era mulher) morasse mais perto. Ou então que eu não tivesse corrido pra roubar aquela rosa. Engraçado a vontade que tive de fazer isso. Cheguei a pensar que fui induzido. O importante é que tinha chegado. Qual não foi a surpresa quando vi a dona da voz de veludo. "Sacana, desgraçado! O que você disse pra ela???". Era uma deusa. Oras... outra! Outra pra abusar e rir da minhas mancadas e escolhas esdrúxulas. Mas, nossa, como era linda. Será que realmente iria agir como o Exibicionista?

O lugar era perfeito para ela. Rosa. (Hum... descobri o motivo da rosa que roubei e porquê entreguei a flor.) Uma cama de nuvens, plumas e imagens da própria deusa. Ela sorria e mostrava os detalhes. Perguntava se eu queria água ou se preferia assistir vídeos da vida de alguns mortais. Eu recusei tudo, afinal estava já curioso pra saber do que se tratava o convite e o que aquele Maldito havia falado sobre mim. A voz de veludo respirou fundo e começou a falar.

- Bem, eu trabalho na Heaven Corporation. Especificadamente no Setor de Criação e Confecção de Sonhos e Mundos Altamente Lindos e Perfeitos (SCCSMALP). E aquilo lá está uma zona. Você deve saber, já que é tão chegado Dele...

- Chegado?! Eu!? Nunca fui nesse tal lugar. E acho que Ele mentiu pra você. Não somos amiguinhos não.

- ...! Mas e as referências?

- É o que eu te pergunto! O que aquele Exibicionista disse?

- Exibicionista! Isso mesmo! Ele disse que você o trata carinhosamente assim. Disse também que você, apesar de ser apenas um mortal, daria conta de resolver nosso problema. Pelo menos o problema do meu setor.

- ...

Carinhosamente? Apenas um mortal?? Problema divino??? Ah... que perfeito! Eu mal consegui transformar bicicletas em água e já tenho que resolver problemas desse tal lugar...

- E eu posso recusar, err... qual é seu nome?

- É Primavera Nana Pereira. E você vai recusar se eu disser que pode?

- Ham... vou.

- Então não pode.

- Ótimo. Ok, Primavera Nana Pereira. O que eu tenho que fazer?

Feliz e saltitante, a deusa pegou um envelope e me entregou. O HC dentro do triângulo equilátero já não me era estranho. Fiquei impressionado mesmo foi com o conteúdo perfumado e bem escrito. As letras não eram douradas e sim prateadas. Ela disse não gostar de ouro enquanto brincava com a rosa que tinha acabado de ganhar. Quando viu que minha leitura estava chegando ao fim, explicou:

- Precisamos urgentemente criar um mundo. O objetivo básico é ser um refúgio. Nada de dúvidas, problemas ou afins. Entende? Ah... restrito a duas pessoas. Como o processo de confecção é extremamente complexo, resolvemos deixar em suas mãos a parte de criação. "Ele é bastante capaz. Ousou chamar a lua de invejosa, veja só! Jogue tudo no colo dele e dê um prazo minúsculo para terminar! Garanto que vai ter um bom resultado!" Foi o que o Chefe disse, mas não acho que deva fazer como Ele disse. Gostei de você. Ter vindo até aqui me poupou de muita coisa...

- ...

- Pois, então. Essa lista de palavras que você leu é um apanhado do que o mundo deve ser. É em cima delas que você deve trabalhar.

- Mas são 359 palavras! Algumas cabulosas, até.

- Pra fazer a Terra do Nunca gastamos 12.987 palavras. Se não se importa Marcos,- e jogou os longos cabelos castanhos para o outro lado da cabeça - precisamos que termine rápido.

Acabou de dizer isso e mirou os olhos nos meus de um jeito maravilhoso. Senti minha alma exposta. Qualquer pensamento ficou à mostra. Deuses são bichos cheios de surpresas. Quem dera eu ter um poder de persuasão desses... Um vento começou a soprar, luzes de fadas rodavam no lugar e o rosa ficou mais vivo. Baita poder de persuasão. A voz de veludo agora estava em minha cabeça:

- Desculpe incomodar você com problemas desse tipo, mas estamos com a corda no pescoço. O Chefe indicou você como um bom recurso. Eu ficaria muito feliz se nos ajudasse. É um mundo de extrema importância. - e chegou mais perto com aqueles olhos de primavera - Ajuda?

E dava pra recusar? Uma deusa primaveril e com olhos de pseudo-misericórdia estava há 3 centímetros do meu rosto. Se falasse para eu imitar um guaxinim acrobata também o faria sem pestanejar.

- Err... claro. Eu faço.

Ela sorriu e o vento parou de soprar. Ao invés de jogar tudo no meu colo como o Sacana sugeriu, me deu um ótimo prazo. Passamos o resto do dia tomando sorvete de flocos e conversando sobre bailarinas com asas de borboleta, mas que não podem voar. Papo de deusa, fazer o quê? Fui embora com uma estranha sensação de utilidade no corpo. Fora o perfume de rosas nas mãos. Foi interessante esse encontro. Muito.

Diferente, branda e sem exigências. Assim se iniciou minha relação com essa nova divindade. Começo a achar que seria mais interessante se o Sacana fosse mulher. E menos chato, quem sabe. Prefiro mil vezes ser marionete da senhorita Primavera do que daquele Exibicionista. Muito mais legal. Aliás, o mundo exigido por ela está quase pronto, mas tenho medo de cometer alguns erros. Portanto, vão vê-lo apenas daqui uns dias. No mais, podem rir da minha engraçada condição de brinquedinho dos deuses.
—– ——– AUTHOR: Marcos Oliveira TITLE: 10/5/2004 02:49:22 PM DATE: 10/5/2004 02:49:22 PM CATEGORY: Nenhum —– BODY: Olhos de Moema




Achei que havia me acostumado
Com espasmos de perfeição.
Que não seria mais surpresa
Superações Dele encontrar.
Como de costume, então,
Enganos cometi.

Se eram pedras ou jabuticabas
Um poeta não saberia responder.
Jóias negras, quem sabe,
Esculpidas por franceses renascentistas.
Doces suposições...
Banhadas sem querer por sorvetes de baunilha.

"Une belle fleur aux beaux yeux..."
Cantam os pardais nas bordas daquelas
Tentadoras janelas, que levam para o mundo
Onde qualquer um padeceria ao conhecer.
E foi melhor parar e ouvir...
"Une belle fleur aux beaux yeux..."
Entre olhares fugitivos e sorrisos de sol,
Pardais cantam...
"Une belle fleur aux beaux yeux..." —– ——– AUTHOR: Marcos Oliveira TITLE: 10/4/2004 11:48:26 PM DATE: 10/4/2004 11:48:26 PM CATEGORY: Nenhum —– BODY: Silvermoon




Um pouco da luz prateada deste que é o meu farol favorito. —– ——–