AUTHOR: Marcos Oliveira
TITLE: 11/29/2004 10:59:48 PM
DATE: 11/29/2004 10:59:48 PM
CATEGORY: Nenhum
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BODY: O universo da gente ® - A carta - Terceira Parte
Pois, então. Vamos começar...
- Ei, tio Marcos! E os flashes legais como no último capítulo? Onde estão?
Hum... Nada de efeitos especiais feito televisão dessa vez. Gastei todo o orçamento naquele capítulo e ninguém nem falou nada sobre. Nhá. Sentem-se e aproveitem.
[Play na tela. Efeito horrendo de câmera.]
Não, não e não! Não queria levantar da cama, nem ligar o computador. Nada. "Mande o que fez para o meu e-mail." Hunf! É um bocado revoltante pensar que se é VIP, mas logo perceber a dura realidade de funcionário. Um funcionário. Nada mais do que um reles mortal ajudando o andar de cima. Que ingenuidade achar que receberia méritos por servicinhos tão bobos como esses. Revoltante. Mas como já dissera Rodrigo, contrariar a vontade de deusas não é lá uma coisa muito inteligente a se fazer. Era melhor começar a digitar aquela coisa imensa.
Já era final de tarde e o sol não batia mais sua luz rosa-alaranjada na janela do quarto. Preguiça, preguiça. Revolta e pombos fazendo barulhos estranhos no telhado. E, nossa, ele odeia pombos. As nuvens de chuva estavam sumindo e deixaram o ar úmido. Aquele cheiro gostoso misturado com o friozinho do início da noite estava diferente do habitual. Era quase a mesma sensação de se passar em frente à lojas de perfume nos shoppings e sentir as zilhões de fragrâncias novas atacarem suas narinas. E de repente:
- E aí? Beleza, Marcos?
Ora, ora... Havia uma moça. Na janela do quarto. Flutuando ao lado de uma janela do segundo andar da casa. Apesar de já ter visto muita coisa nos últimos tempos, o Marcos não deixou de gritar e cair da cadeira comicamente. Do chão, enquanto passava a mão na cabeça por tê-la batido na queda, olhou melhor para a tal moça. Tinha a pele clara e a luz ainda fraca da lua combinava estranhamente com aquele tom. Os cabelos lisos e negros caíam em mechas finas sobre os olhos castanhos. Perfeita combinação com o sorriso meigo que parecia querer dizer muito mais do que parecia. Linda. Muito, muito linda. O Marcos não sabia se estava tonto ou se realmente viu asas de libélula nas costas dela. Vestia um vestido branco de seda, com alças finas e detalhes vermelhos nas bordas. Pareciam borboletas. Prendia o cabelo com um pregador de borboleta também, mas essa era preta com pedras coloridas nas asinhas. Perto dos pés e mãos delicadas, pulseiras finas e prateadas refletiam a lua nos olhos dele. Linda. Realmente.
- Calma, moço! Só vim ver o que a Pereira arrumou pra você.
- Ham... sei. Eu estou começando a cansar de repetir essa frase: Quem é você?
- Se está cansado de perguntar, não pergunte. Esperasse eu me apresentar.
- ...
- ...
- ... bem...
- Vai ficar olhando pra minha cara ou vai começar logo a digitar a carta?
Poxa... Coisa estranha essa! Uma moça chega voando pela janela do quarto, nem pede pra entrar e ainda dá ordens ao pobre coitado. Mais estranho ainda foi como o Marcos levantou do chão cambaleando e sentou na cadeira. Na verdade foi mais engraçado do que estranho. Ele tentava não esboçar a desconfiança que tinha em relação à presença daquele ser. Ela passava uma tranqüilidade mórbida, gostosa. Mas aquele sorriso era misterioso por demais. "Anda! Digita logo! Eu quero ler...", ela dizia. "Deve ser mais uma deusa", ele pensava. E começou a digitar.
Entre sorrisos da tal moça e olhadas rápidas do Marcos para aquele rosto lindo, a carta para a Primavera Nana Pereira estava pronta pra ser enviada por e-mail. E ficou assim:
À Primavera Nana Pereira, Chefe do Setor de Criação e Confecção de Sonhos e Mundos Altamente Lindos e Perfeitos da Heaven Corporation.
Pauta: O universo da gente ®
Bem, Senhorita Primavera... Espero que goste desse mundo que criei:
"Antes de mais nada, esqueça sapatos, sandálias e chinelos. Aqui você não vai precisar deles. Entre seus pés a as nuvens (que apesar de suaves são resistentes) não deve haver nenhum tipo de barreira. E, sim, as nuvens são rosadas.
Deixados para trás os calçados, é preciso ter certeza de que vai amadorar aqui dentro. Mas amadorar de paixão. Amadorar de muita paixão é o ingresso entrada para esse universo púrpura. E é um ingresso só de ida. Ao pisar nessas nuvens e olhar os três sóis desse céu, jamais poderá voltar de onde veio. Ah, uma lua apenas. Mas uma lua grande que aparece somente quando os dois se perdem nos olhos um do outro. É. Esse mundo é feito para duas pessoas. Que se amadorem, claro.
Apesar da restrição, existem mais componentes vivos aqui. As bailarinas morenas, as borboletas, as baleias (que não nadam, mas voam entre as nuvens com seus filhotes), os elefantinhos e os pardais que cantam em francês aveludado. Todos eles estão espalhados por aí. Hora próximos às fontes de jujubas, hora dormindo debaixo das árvores gigantes que existem no topo de cada morro. E aqui pode-se dormir quando quiser, ou quando convir. Há celulares para mandar mensagens aos amigos na Terra, ampulhetas para não se medir o tempo e projetos de anjos, que mais se parecem com menininhas de 3 anos, pintando novas frutas para as árvores. Dia e noite. E pintam bem. Muito mais do que bem.
Ao cair da tarde, todos os pardais vêm contemplar o pôr-dos-sóis à beira do rio que corta todo esse mundo, o Shawn. Ele nasce nas Colinas Hampshire, o ponto mais alto daqui, e deságua no grande Septembre. As margens do Shawn são cheias de flores. Orquídeas e lírios-do-campo, em sua maioria. O vale do rio se infesta de bailarinas que brincam de pega-pega até o anoitecer. Nesse meio tempo as frutas já estão prontas e podem ser colhidas. É uma das melhores horas...
Quando cai a noite, as estrelas não se contentam em ficar firmes no firmamento. Descem em vôos rasantes deixando pó-de-estrela em sua roupa. Aliás, só quem tem esse pó prata pode atravessar livremente o rio Shawn. É bom saber que para encontrar o segundo dono desse mundo, deve-se atravessar as margens do rio. Não há jangadas, barcos nem nada do tipo para auxiliar na travessia, por isso, aconselho subir à nascente e seguir o curso até o delta. Lá, no encontro entre o rio e o mar, se os dois seguirem bem o conselho, vão encontrar um banco solitário com as iniciais dos nomes de frente para o Septembre. É bom não se assustar com tamanho detalhamento e personalização. Preocupe-se mais em encontrar com a outra metade disso aqui e em se perder nos olhos dela. A lua é meio temperamental e não gosta de não aparecer por muito tempo.
Uma vez juntos, todo esse universo entrará em equilíbrio. Tudo fará sentido. Juntos, terão o poder de mudar o curso do Shawn, se quiserem. Até as cachoeiras fariam seu trabalho ao contrário. Voar pelos vales e escolher quais frutas as menininhas irão criar serão coisas comuns a se fazer. O mundo é de vocês. Assim sendo, terá a cara que vocês escolherem.
Pois, se amadorem. A existência ou não desse mundo depende dessa chama em vocês."
- O que achou, moça-que-eu-ainda-não-sei-o-nome? - perguntou o Marcos, tentando parecer menos desconfiado.
- ... hum, a Primavera deve aceitar isso aí por ser seu primeiro trabalho. E quem sabe o único, moço-que-só-vai-saber-meu-nome-se-eu-quiser.
- ... achei que tivesse gostado.
- Ficou relativamente bom. O fato da Nana Primavera ter te dado tanta liberdade muito me impressiona. Rolam boatos que você é meio, ham, chegado do Cara. Você tem lá seus créditos, não se preocupe.
- Não sou chegado de ninguém! Só aceitei esse trabalho porque a Senhorita Primavera insistiu bastante. Só por isso!
- Sei, sei... Não gosto do ti-ti-ti daquele prédio, e duvido que ela tenha insistido.
A moça disse isso e a luz lunar clareou ainda mais seu rosto. Um sorriso irônico agora era o que mais chamava a atenção do Marcos. "Quem será essa aí? Tem o mesmo ar de divindade da Senhorita Primavera e do Sacana, mas é diferente", pensava.
- Bem, parabéns pela dedicação ao trabalho. Bom saber que ainda existem marionetes eficazes. Agora eu tenho que voltar para lá. - e olhou para a lua, que estava mais brilhante e redonda que o normal.
- Para lá? Como assim? Você não trabalha na HC também?
- Eu te falei que não gosto daquele lugar. Me recuso a usar um crachá e não considero o que faço um trabalho. Sou sim, subordinada daquele Cara, mas às vezes é bom ir contra os caprichos Dele.
- Hum! Taí, uma coisa que concordo! Mas, o que realmente você faz? Ou não vai me dizer também?
- Você é bem abusado, moço. Deve estar se achando por poder nos ver e conversar conosco. Mas, tudo bem. Te digo meu nome e o que eu faço. Meu nome é Amy. Amy Libélula Dragonfly. Sou eu a encarregada da lua e de toda a influência dela sobre vocês aqui na Terra.
- ... tá falando sério?
- Você é mais do que abusado. Onde já se viu ter coragem de duvidar de mim? - e sorriu, deliciosamente.
O Marcos virou-se para o computador para poder enviar o e-mail para Nana Primavera. Sentia-se mais à vontade com os sorrisos de Amy. Falou algumas coisas enquanto imaginava o melhor jeito de pedi-la para entrar no quarto, afinal, já estava começando a ficar frio. O silêncio na janela já incomodava. No momento que clicava em "Enviar", uma brisa mais forte bateu em seu rosto. Olhou pela janela e a moça dos olhos misteriosos já não estava lá. Sentou na cadeira e suspirou inconformado. "Pare de pensar que é VIP, idiota. O Sacana deve estar rindo de você." Desligou o computador e foi se deitar.
A lua estava muito mais cheia do que o normal e o Marcos procurava entre as nuvens aquela moça linda. "Cuida da lua, hein? Deve ser o melhor trabalho do universo. Esse pessoal da Heaven Corporation podia me dar uma mamata dessa."
E ele demorou pra perceber, mas o cheiro gostoso e úmido passou depois que Amy foi embora. Era estranho e bonito ao mesmo tempo. A voz daquela deusa tinha cheiro de chuva.
To be continued
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AUTHOR: Marcos Oliveira
TITLE: 11/15/2004 10:29:02 AM
DATE: 11/15/2004 10:29:02 AM
CATEGORY: Nenhum
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BODY: Tinha gosto de melancia
E por onde anda o gosto de melancia?
Que não liga...
Não chama...
Não olha...
Cadê o vento perfumado dos cabelos?
Que não canta...
Não acalma...
Não é meu...
E será que fugiu, o frio na barriga?
Que não vem...
Não volta...
Era seu...
Eu quero seu beijo.
Que tinha gosto de melancia,
Mas que agora em saudade
Apenas me embriaga, amor.
E o final da história está saindo do forno. Aguardem. Ou não.
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AUTHOR: Marcos Oliveira
TITLE: 11/5/2004 05:41:21 PM
DATE: 11/5/2004 05:41:21 PM
CATEGORY: Nenhum
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BODY: Como é que se diz eu te amo?
Cá entre nós, como é que se diz eu te amo?
Falei demais o que sempre quis escutar...
Minhas lágrimas não são pérolas.
Estou doente e chorar dói o peito, moça.
Acho que meus olhos querem você...
Como é que se diz eu te amo?
Com sua voz de chuva deve ser fácil
E mais fácil seria se eu a escutasse.
Sua certeza incerta nunca vai vir...?
Vou ali dormir, mas não quero acordar.
Como é que se diz eu te amo...?
Não se preocupe e nem me peça pra parar.
Está tudo bem. Está tudo normal.
Afinal, deve ser a febre. Ou será um pouco de você?
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