AUTHOR: Marcos Oliveira TITLE: 3/15/2005 12:37:34 AM DATE: 3/15/2005 12:37:34 AM CATEGORY: Nenhum —– BODY: Olhos de lua não ecoam




"There's something
about the look
in your eyes..."



Viu o olhar mais difícil de se ver em um banco de praça. Por sorte hipnotizante nem pode entender o que ele passava. Não. Na verdade entendeu, mas foi tão preferível fingir que estava afogado no completo desconhecido... Era misterioso sem assustar. Pedia mil coisas sem querer nada. Gritava um grito mudo. Mais mudo do que a própria mudez. Aquele olhar chamava atenção por ser sincero...

Quando os olhos se vestiram de vermelho a tatuagem nas costas ardeu. Ora, ela ainda nem existia. Seria o sinal para ela passar a existir? Ah... e valeria a pena ela existir agora. E tinha aquela voz de chuva que quase fazia chover por dentro. Tinha os ladrões de rosas nos jardins. Tinha o guarda do jardim que dormia. E choveu. Não por dentro como quase a voz fazia, mas o banco da praça nem se molhou. Até que o olhar se deitou. E eles se olharam. Ele e o olhar de lua que estranhamente não ecoava, todavia fez arder o que era segredo.

O céu não estava laranja, nem azul e nem nada. Não tinha céu. Tinha a praça, o banco e o olhar vestido de vermelho no colo. Música? Não... era a voz de chuva que quase fazia chover por dentro. E só. De repente o banco some e asas de libélula surgem para fazer voar. E ele pediu o olhar pra ele... A tatuagem que não existia queimou, o céu sem cor sumiu, eles voaram e o olhar quis ser dele. Aquele olhar chamava atenção por ser sincero...

Viu o olhar mais difícil de se ver em um banco de praça. E gostou daquele olhar. Amou, até. E ele também gosta da libélula. Ama, até. Em todo seu jeito incomum e imaculado de ser.


"Could you show me dear...
Something I've not seen?
Something infinitely
interesting..."
—– ——– AUTHOR: Marcos Oliveira TITLE: 3/9/2005 12:17:39 PM DATE: 3/9/2005 12:17:39 PM CATEGORY: Nenhum —– BODY: O 1257º dia




Sabe-se de uma pequenina cidade no meio do nada onde meninos acham graça em amarrar libélulas com barbante. É estranho ver como elas voam, voam e não vão a lugar nenhum, presas pelo barbante e pelas mãos dos moleques. Algumas vezes, entre risos e meninas correndo de medo, surge alguém que protesta por querer ver as libélulas livres. As críticas e palavrões que precedem o protesto chegam a ser inúteis. Talvez até o protesto chegue a ser inútil, afinal, as libélulas sempre acabam livres.

Era Setembro quando se começou a prestar atenção naquele vôo de libélula. Era também em Setembro que ainda se vivia. Parecia que tudo acontecia em Setembro, mas aquele foi o Setembro da libélula. E exalou mudança. E lembrou a bandeira da folha vermelha. Infelizmente, ninguém amarrou essa libélula em barbante algum. Ela alçou vôo para onde existisse verão.

O tal verão veio, mas sem libélula. E Setembro já ia longe... Aliás, esqueçam Setembro. Pensem em Março. Esqueçam todos os céus alaranjados e a vida pulsante nos primeiros brotos da primavera. O que embriaga mesmo os castanhos agora são as águas de Março. Águas essas que vêm tarde. Que digam eles, os castanhos. Estavam foscos por culpa de águas mais salgadas. E olha... Está chovendo de novo. Chove de novo e de novo vem a libélula. Não para aproveitar o verão, lógico. Veio porque veio. Em Março.

É interessante como as coisas mudam por causa de outras coisas tão simples. Libélulas. A libélula de Setembro (que agora é de Março) faz a primavera parecer menor. Tanto em importância quanto em duração. No entanto, primavera lembra Setembro e o que importa agora é Março. Março e sua libélula cheia de mistérios. É mais ou menos como acontece na pequenina cidade no meio do nada onde os meninos acham graça em amarrar as libélulas com barbante. No final, as libélulas sempre vencem.

"São as águas de Março
fechando o verão.
É a promessa de vida
no meu coração..."
—– ——– AUTHOR: Marcos Oliveira TITLE: 3/5/2005 04:13:14 AM DATE: 3/5/2005 04:13:14 AM CATEGORY: Nenhum —– BODY: Insustentável leveza de ser




"Eu tive fora uns dias
numa onda diferente...
e provei tantas frutas,
que te deixariam tonta..."




Às vezes é bom sumir. Outras vezes é bom ficar calado e deixar as coisas correrem paralelas. Muitas vezes é importantíssimo escutar o toque do celular no meio da noite.

Há dias em que tapas no rosto e lágrimas escassas valem mais do que filme e sorvete em dias de chuva.

De vez em quando não escutar o que não queremos é perfeito. O problema é escutar o que queremos de vez em quando.

Houve um tempo em que o cheiro da pele não mudava, e, quando mudou, mudou. Agora têm aqueles dias em que o cheiro volta e dá saudade do filme e do sorvete.

Às vezes é bom conversar. Outras vezes é bom xingar, pedir desculpas depois e não precisar conversar.

Muitas vezes bate uma solidão estranha. E de forma tão estranha ela também vai embora. Ah... e há dias em que é bom ir embora. Sem tchau, sem beijo. É estranho, e, às vezes, necessário.

De vez em quando o nosso quarto fica meio escuro e a gente chora. O problema é quando choramos de vez em quando sem o quarto.

Houve um tempo em que os espelhos nem importavam tanto, e, quando começaram a importar, ficou ruim. Agora têm aqueles dias em que o espelho te olha de volta e dá saudade do tchau. Do beijo.

Às vezes é bom apagar os velhos desenhos. Outras vezes é bom abrir as gavetas e reler as velhas marcas de grafite. Muitas vezes é ruim não ter ninguém pra conversar.

Há dias em que é melhor não acordar e (ou) sonhar com o dia em que seria bom acordar.

De vez em quando não ser o acompanhante desejado machuca muito. O problema é não ser desejado como acompanhante de vez em quando.

Houve um tempo em que se separavam as músicas pelas pessoas que elas lembravam, e, quando isso acabou, perdeu a graça.

Às vezes é bom esquecer. Outras vezes é bom lembrar do que foi bom. Muitas vezes a gente não entende o choro das outras pessoas.

Há dias em que a gente some. E os outros lembram de você.

De vez em quando tudo faz lembrar o que seria muito, muito melhor esquecer. O problema é esquecer de tudo que seria muito, muito bom lembrar de vez em quando.

Houve um tempo em que pensar no recomeço seria pecado, e, quando não recomeçou, foi pecado mesmo.

Um minuto, um dia, um mês ou mais. Não importa o tempo que se demora pra enxergar e aceitar certas coisas. O que importa mesmo é não sentir mais falta de andar de mãos dadas às vezes. Um poeta em castanhos está de volta.

"E nem te falei...
que eu te procurei
pra me confessar.
Que eu chorava de amor,
e não porque sofria...
Mas você chegou, já era dia,
e não estava sozinha...
Eu tive fora uns dias.
Eu te odiei uns dias.
Eu quis te matar..."
—– ——– AUTHOR: Marcos Oliveira TITLE: 3/3/2005 06:17:48 PM DATE: 3/3/2005 06:17:48 PM CATEGORY: Nenhum —– BODY: Copos-de-Leite




Mamãe,

Como vão as coisas aí em casa? Espero que tenha parado de brigar com o papai por causa da viagem. Estou amando a França. Sei que ele já deve ter dito isso milhares de vezes: são apenas 6 meses de curso e logo estarei de volta. Aliás, dê um beijão no papai por mim. Diga que o amo muito. Ele também não queria que eu viesse e mesmo assim me ajudou a te convencer... Mas, não se sinta a "vilã" da história como de costume. Enquanto íamos para o aeroporto papai me contou algumas coisas. Confesso que o arrependimento por não ter te dado um abraço antes de ir multiplicou-se infinitamente. Eu sei, eu sei... O clima entre a gente não estava muito bom. Fingir não conhecer, gritar, trazer à tona besteiras passadas... Sempre fomos boas nisso. E coitado do Sr. Marcos. Sempre no fogo cruzado, sempre tentando salvar suas meninas de todas as eminentes feridas que as palavras sempre causam. Sabe, mãe? Ter partido sem nos despedir foi a melhor coisa que poderia ter acontecido. Se papai não tivesse se incomodado tanto com minha cara emburrada, nunca teria dito o quanto vocês já falavam de mim antes mesmo de eu nascer. Aliás, antes mesmo de me "encomendarem", se é que você me entende. Brotam lágrimas só de lembrar dele falando sobre aqueles dois, deitados numa cama meio desarrumada, poucos palmos de distância um do outro e, de certa forma, brigando sobre os futuros namorados da rebenta que com certeza viria idêntica a garotinha da foto na parede. E não paravam por aí. Disputavam até de qual dos dois ela gostaria mais. "Ela não suportava a idéia de que talvez você gostasse mais de mim. Nunca entendia que isso seria impossível de acontecer. Hehehe... Sua mãe..." Ora bolas, mãe! Que disputa absurda... Meu orgulho só se conteve porque já estávamos no aeroporto e papai não sabia se continuava a emendar as lembranças ou se saía do carro. Quis muito que o último abraço que dei nele tenha alcançado você aí. Estou feliz de um jeito estranho, mamãe. Me acostumei a ouvir histórias sobre vocês dois desde pequena. As loucuras exageradas do papai, suas crises, as brigas os poemas... Vovô nunca cansou de contar tudo repetidas vezes. Mas essa última de alguma forma mexeu mais comigo. Acho normal um casal de namorados fazer planos sobre mil coisas, mas quando se é o resultado de um desses planos as coisas ficam bastante... diferentes. Estou realmente feliz, mamãe. E eu te amo mais do que imaginava. TAHPSCS, não é? Finalmente descobri o que significam essas letras e elas com certeza valem para nós duas também. Não só para a senhora e o papai. Bem, Toulouse é maravilhosa. Acabei de chegar em Bordeaux e no Sábado já estarei em Paris. Ah, o vinho que vai junto da carta é do vovô e da vovó. Na próxima carta mando o endereço da casa onde eu e a Babi vamos estar. Hum... ela está dormindo. Chorou um bocado por ter que abandonar o Vítor aí em Belo Horizonte. Tenho que desfazer as malas, mamãe. Te amo, te amo, te amo.

Beijos da sua filha,

Giovanna. —– ——–