AUTHOR: Marcos Oliveira TITLE: 4/8/2005 01:50:00 AM DATE: 4/8/2005 01:50:00 AM CATEGORY: Nenhum —– BODY: Euthanasía




É só um quarto. Nem escuro e nem claro. Há uma poltrona velha, um pequeno criado-mudo, parafernalhas que dizem ser meus pulmões e meus rins, tubos, muitos tubos, uma cama e eu. Ah, claro... E agora há o aquário com o peixe dourado. Maldito peixe. Maldita ironia.

Quando cheguei aqui as paredes eram verdes e as visitas eram bem mais freqüentes. Talvez as paredes ainda sejam verdes, mas eu, talvez, tenha me tornado mais tedioso do que eles possam imaginar. Certa vez trouxeram um relógio. Não sei para quê. Saber as horas é meio insuportável deitado nessa cama. Eles achavam que eu não sabia as horas, mas eu sabia. Alguém deve ter percebido que eu sabia, pois não há mais o relógio na parede. Ele ficava bem em frente. Eles achavam que eu nem estava mais ali, mas eu estava. Por isso sabia as horas. Agora, em frente, há o maldito aquário do peixe dourado. Maldito peixe. Se soubessem a grande ironia que aquele peixe significa, voltariam com o relógio.

Sei que é Terça-feira por causa de Roberta. Ela sai mais cedo do trabalho na Terça e aproveita para vir dar comida para o peixe. "Cuidou bem do meu amor, senhor peixe? Cuidou?" Maldito peixe. Aliás, não considero Roberta como um deles. Nós não queríamos viajar depois da festa. Nós dois não bebíamos. Nós éramos namorados felizes. Se não tivéssemos entrado no carro e preferido ficar olhando para o aquário da casa do João, eu teria perguntado à Roberta se ela também não entendia como chamavam aquele peixe de dourado. Maldito peixe. Daí, Roberta não teria que vir até aqui dar comida para esse peixe. Daí, eu conseguiria fazer perguntas. Maldito peixe.

É uma grande ironia. Nunca entendi os motivos de chamarem aquele peixe alaranjado de dourado. Quando menino, minha tia comprara um desses e me dera. "Ele é laranja, tia. Dourado é o colar da mamãe". E todos achavam graça da comparação. Talvez porque nem sabiam argumentar a minha pequena grande dúvida. O engraçado é que a dúvida não se foi quando o peixe morreu. Morreu rápido, por sinal. Eu não cuidava bem dele. Era difícil entender como algo laranja podia ser chamado de dourado. Era melhor que morresse, então. Que deixasse de existir. Quem sabe, assim, a dúvida também sumiria. O engraçado mesmo é que a dúvida não se foi quando o peixe morreu. Maldito peixe. E Roberta não deixa de vir nas Terças dar comida para ele. Antes só comesse nas Terças, mas descobri que os outros também o chamam de senhor peixe.

Estão falando que meus pulmões e meus rins não precisam mais funcionar. Perdi a noção do tempo, porque não sei mais quando é Terça-feira. Roberta não vem mais. Maldito peixe. Continua ali. Como? Roberta não vem mais. As visitas começaram a ficar freqüentes novamente. Olham para mim como eu olho para o peixe. Alguns me perguntam coisas que não escuto bem. Quero saber de Robera sobre o dourado do peixe laranja. Roberta não vem mais. Ninguém vem mais, eu acho.

É só um quarto e agora está definitivamente escuro. Nada da poltrona e do criado-mudo. Agora sou eu, a cama, as parafernalhas cansadas, os muitos tubos e o peixe. Maldito peixe. Ah... e a janela. Hoje eu sei que há uma janela. O quarto definitivamente escuro tem a claridade de uma janela sobre o aquário. Ei... espera aí! Eles estão entrando. Estranho. Nem olharam para mim. Geralmente olham para meus rins e pulmões e dizem coisas desinteressantes. E que surpresa... Roberta veio! Mas chora.

Trouxeram um crucifixo e colocaram no lugar onde antes ficava o relógio. Roberta chora. Maldito peixe. Estão levando ele. Trocaram o peixe laranja por um crucifixo fajuto. Nem perguntaram se eu queria reaver a fé que perdi no dia daquela festa pela dúvida que me acompanhava há tempos. "Como podiam chamar aquela peixe de dourado, Roberta?" Mas ela só chorava. E chorava cada vez mais. Levaram mesmo o peixe. Maldito peixe... E Roberta chorava.

Acho que falavam sério em desligar meus pulmões e rins. Muitos deles em volta de mim e ela chorando cada vez mais desesperada. Pouca diferença fazia agora. Roberta também não sabia os motivos do peixe laranja ser dourado. Desliguem logo isso tudo. —– ——– AUTHOR: Marcos Oliveira TITLE: 4/1/2005 02:26:45 AM DATE: 4/1/2005 02:26:45 AM CATEGORY: Nenhum —– BODY: Batata frita e queijo cheddar, por favor




E quem disse que seria fácil fugir das ironias? E quem disse que eu quero dançar?

O que eu quero mesmo é mandar flores. Vermelhas. —– ——–