AUTHOR: Marcos Oliveira
TITLE: 2/25/2006 06:20:59 PM
DATE: 2/25/2006 06:20:59 PM
CATEGORY: Nenhum
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BODY: Euthanasía
É só um quarto. Nem escuro e nem claro. Há uma poltrona velha, um pequeno criado-mudo, parafernalhas que dizem ser meus pulmões e meus rins, tubos, muitos tubos, uma cama e eu. Ah, claro... E agora há o aquário com o peixe dourado. Maldito peixe. Maldita ironia.
Quando cheguei aqui as paredes eram verdes e as visitas eram bem mais freqüentes. Talvez as paredes ainda sejam verdes, mas eu, talvez, tenha me tornado mais tedioso do que eles possam imaginar. Certa vez trouxeram um relógio. Não sei para quê. Saber as horas é meio insuportável deitado nessa cama. Eles achavam que eu não sabia as horas, mas eu sabia. Alguém deve ter percebido que eu sabia, pois não há mais o relógio na parede. Ele ficava bem em frente. Eles achavam que eu nem estava mais ali, mas eu estava. Por isso sabia as horas. Agora, em frente, há o maldito aquário do peixe dourado. Maldito peixe. Se soubessem a grande ironia que aquele peixe significa, voltariam com o relógio.
Sei que é Terça-feira por causa de Roberta. Ela sai mais cedo do trabalho na Terça e aproveita para vir dar comida para o peixe. "Cuidou bem do meu amor, senhor peixe? Cuidou?" Maldito peixe. Aliás, não considero Roberta como um deles. Nós não queríamos viajar depois da festa. Nós dois não bebíamos. Nós éramos namorados felizes. Se não tivéssemos entrado no carro e preferido ficar olhando para o aquário da casa do João, eu teria perguntado à Roberta se ela também não entendia como chamavam aquele peixe de dourado. Maldito peixe. Daí, Roberta não teria que vir até aqui dar comida para esse peixe. Daí, eu conseguiria fazer perguntas. Maldito peixe.
É uma grande ironia. Nunca entendi os motivos de chamarem aquele peixe alaranjado de dourado. Quando menino, minha tia comprara um desses e me dera. "Ele é laranja, tia. Dourado é o colar da mamãe". E todos achavam graça da comparação. Talvez porque nem sabiam argumentar a minha pequena grande dúvida. O engraçado é que a dúvida não se foi quando o peixe morreu. Morreu rápido, por sinal. Eu não cuidava bem dele. Era difícil entender como algo laranja podia ser chamado de dourado. Era melhor que morresse, então. Que deixasse de existir. Quem sabe, assim, a dúvida também sumiria. O engraçado mesmo é que a dúvida não se foi quando o peixe morreu. Maldito peixe. E Roberta não deixa de vir nas Terças dar comida para ele. Antes só comesse nas Terças, mas descobri que os outros também o chamam de senhor peixe.
Estão falando que meus pulmões e meus rins não precisam mais funcionar. Perdi a noção do tempo, porque não sei mais quando é Terça-feira. Roberta não vem mais. Maldito peixe. Continua ali. Como? Roberta não vem mais. As visitas começaram a ficar freqüentes novamente. Olham para mim como eu olho para o peixe. Alguns me perguntam coisas que não escuto bem. Quero saber de Robera sobre o dourado do peixe laranja. Roberta não vem mais. Ninguém vem mais, eu acho.
É só um quarto e agora está definitivamente escuro. Nada da poltrona e do criado-mudo. Agora sou eu, a cama, as parafernalhas cansadas, os muitos tubos e o peixe. Maldito peixe. Ah... e a janela. Hoje eu sei que há uma janela. O quarto definitivamente escuro tem a claridade de uma janela sobre o aquário. Ei... espera aí! Eles estão entrando. Estranho. Nem olharam para mim. Geralmente olham para meus rins e pulmões e dizem coisas desinteressantes. E que surpresa... Roberta veio! Mas chora.
Trouxeram um crucifixo e colocaram no lugar onde antes ficava o relógio. Roberta chora. Maldito peixe. Estão levando ele. Trocaram o peixe laranja por um crucifixo fajuto. Nem perguntaram se eu queria reaver a fé que perdi no dia daquela festa pela dúvida que me acompanhava há tempos. "Como podiam chamar aquela peixe de dourado, Roberta?" Mas ela só chorava. E chorava cada vez mais. Levaram mesmo o peixe. Maldito peixe... E Roberta chorava.
Acho que falavam sério em desligar meus pulmões e rins. Muitos deles em volta de mim e ela chorando cada vez mais desesperada. Pouca diferença fazia agora. Roberta também não sabia os motivos do peixe laranja ser dourado. Desliguem logo isso tudo.
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AUTHOR: Marcos Oliveira
TITLE: 2/16/2006 12:34:30 AM
DATE: 2/16/2006 12:34:30 AM
CATEGORY: Nenhum
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BODY: intertextual
Muita coisa.
Mais coisa ainda.
Aonde eu puder.
Tentando.
Diferente.
Espero que não.
Os dois, no devido tempo.
Realíssimo.
Como um oito deitado.
A segunda, e a primeira.
Para olhar e para pisar.
As duas.
O que mais brilhar.
Nenhum dos dois.
Uma com a outra, ou a outra com a uma.
Ela e ele.
Um pra ler, o outro pra sonhar.
Ela e ela.
Nós.
Nós.
Sim.
O amanhecer de amanhã enche-nos de perguntas...
Bom saber que existem perguntas acompanhadas de sorrisos.
Como aquele de detalhe metálico ao sul.
Ou como a Neurologia.
Ou Psicanálise?
Destino.
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AUTHOR: Marcos Oliveira
TITLE: 2/12/2006 01:20:11 PM
DATE: 2/12/2006 01:20:11 PM
CATEGORY: Nenhum
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BODY: Cartas
"...what I need now is an honest answer..."
Querida Mary,
Em uma única pergunta: Onde está você? Já são quantas? Três, quatro semanas desde a última vez que nos vimos? Qual foi mesmo a última vez que nos vimos? Céus, Mary... Fico imaginando se você faz questão de me ver. Céus, Mary... até quando vai ser assim? É... não dá para resumir em apenas uma pergunta.
Talvez você ache estúpido receber uma carta minha. Mas, sinceramente, é o melhor jeito que encontro para me comunicar com você. Telefones, Mary, me assustam. E silêncios te incomodam. Eu nem sei mais o que te falar ao telefone. Por isso não ligo. E se eu não ligo, você não liga. Por maldito orgulho feminino ou por simples descaso mesmo. Caio sempre na bobagem de querer acreditar na primeira opção, contrariando o fato de que o mais certo seria crer na segunda. Mas, eu não sei o que te falar ao telefone e muito menos quando encontro com você. Gaguejo ao afirmar que nem lhe conheço mais. Que, com certeza, não sei o que você faz ou o que pensa. Principalmente o que você pensa. Desconheço o que você quer da vida ou de mim. Se é que ainda quer algo de mim. E, querida, eu cansei de fazer essa pergunta a você e às paredes de todos os quartos que durmo. Não faço idéia de onde tiro vontade para te ver outra vez.
Sabe, a verdade é que sinto sua falta. E até falar isso se tornou difícil. Sinto falta de quando eu parecia te fazer feliz. De quando meu jeito de ser parecia ser exato às suas carências. Os últimos meses, desde quando você decidiu ser como é hoje, foram os mais descartáveis de minha vida. Meses assim me deixam com medo de viver o resto. Me deixam desconfiado com tudo em relação a você. E, querida, acho que não confio mais em você. Ou talvez eu ainda esteja (e estou, droga) vivendo e te tratando como alguém que eu conhecia. Alguém em quem eu punha toda a confiança do mundo. No entanto, não conheço mais você. Nem parece que um dia fui "o amor pra vida inteira" que pousou em suas coisas. E se você ainda disser que eu sou, pergunto: Do que adianta ser amor pra vida inteira em alguns poucos momentos de sua vida?
Você diz estar vivendo muitas coisas. Outras histórias, outras diversões, outras raivas, outros. Adivinhe o que eu tenho vivido. Sim, porque você nem pergunta o que eu tenho vivido antes de dilacerar meu peito com suas experiências. Vivo nossas histórias, nossas diversões, suas raivas, você. Acho que não devia ser tão louco por você. E tenho certeza que não deveria ter escrito isso, também. O engraçado é que não me arrependo desse tipo de declaração. Não me arrependo de nenhum "eu te amo" e não me lembro do último que escutei. Não... na verdade eu me lembro. Estávamos em minha cama, abraçados e deitados com os pés para o lado da cabeceira. Nus. Entre seus cabelos desalinhados surgiram os olhos marejados de lágrimas. Foi o último. E saiu choroso, doloroso. Lembro de não saber o que dizer. Apenas te abracei o mais carinhosamente que pude. Aquele foi o último que escutei. É triste ter a quase certeza de que você não se lembra disso. Seus motivos para ter dito foram diferentes dos que eu esperaria. Era algum tipo de agradecimento por eu aceitar a situação que já durava tanto tempo. Foi inacreditável até para mim. Mas, aquele foi o último. E parando pra pensar agora, não me lembro do último que saiu da minha boca.
Hoje sei que passamos dos limites. Que você passou dos limites. Não nos vemos regularmente e deixamos de nos conhecer. Você vive outras coisas e eu não sei mais o que sou para você. Não sei como me portar ao lado do seu pouco caso periódico. Pergunto se o dia de amanhã vai ser diferente. Se meus amigos vão parar de querer me ver longe de você. Entende a gravidade da situação? Estou ficando sozinho por sua causa, querida. Isso é, se "estou ficando sozinho por sua causa" não for eufemismo para "estou sozinho por sua culpa".
Dá pra voltar a ser como antes?
P.S.: Não sei o porquê de ainda te tratar como "querida".
Do seu, sempre seu,
Jack.
"... my hands are tied and I surrender..."
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AUTHOR: Marcos Oliveira
TITLE: 2/6/2006 06:33:58 PM
DATE: 2/6/2006 06:33:58 PM
CATEGORY: Nenhum
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BODY: eufemismo
"... give life, give love, give soul...?"
Imagine não viver. Assim vive Benedict. Gosto desse nome, Benedict. Mas o próprio Ben, como prefere ser chamado, nunca gostou de fato. Lembro-me que desde pequeno pedia aos pais para lhe arranjarem uma nova alcunha. Benedict temia que as pessoas não soubessem pronunciar seu nome. Na verdade, ele tinha medo era da repulsa que ele mesmo sentia. "E se eles odiarem tanto quanto eu odeio? E se odiarem mais?". E foi medo que ele teve que suportar e suportar até esquecer. Ou ignorar, quem sabe? Mas, voltando ao início. Imagine não viver. Assim vive Benedict.
Certa vez, recebeu uma carta. Era o convite mais convidativo que Benedict já recebera. Em envelope púrpura e escrita com letras garrafais a carta dizia: "Ei. Quer perder alguns anos de sua vida fazendo nada e achando que o nada vai fazer diferença?". Oras! Que letra maravilhosa era aquela? Os "as" eram tão grandes e tão redondos... De longe, aliás, todas as letras pareciam "as". Era realmente maravilhosa aquela escrita. Talvez por ser tão maravilhosa, Ben aceitou o convite sem ao menos suspeitar do remetente. Aceitou e não viveu mais. E imagine só, não viver. Assim vive Benedict.
Sem contrariar o convite e sem pensar em mais nada, Benedict deixou-se cegar. Só mesmo cego para não viver. Por poucos segundos viu o remetente das letras maravilhosas e foi a última coisa que viu. Daquele momento em diante os olhos dele viraram-se para dentro, mas enxergaram tudo que havia dentro das vontades e dos caprichos daqueles "as" enormes e redondos. Abdicações, concessões, desegocentria... as comuns atividades de um Ben cego e que, pra variar, não vivia. Imagine não viver, meu Deus. Assim vive Benedict.
Já se vão os alguns anos que a carta convidou meu velho Benedict a não viver. Sinceramente, eu não fiquei feliz quando lhe furaram os olhos. Mesmo assim, respeitei os passos cegos daquele adulto infantil. O início daquela caminhada, confesso, foi excitante. Até que as farpas e pedras de tédio do remetente começaram a ferir. Começaram a ferir tanto que Ben voltou a enxergar. E seria melhor continuar cego, porque ficar perdido no tempo perdido, e preso a um contrato inquebrável, é uma das piores sensações humanas. Benedict chorava por não viver. Não é difícil imaginar...
Imagine não viver. Assim vivem Benedict e tantos outros. Sendo sugado, usado e usurpado por ele mesmo. A história, por sinal, foi bastante resumida. Censurada e reformulada. Afinal, é a vida de alguém sendo jogada fora. Amor de alguém sendo jogado fora. Pobre Ben, pobre Ben. Não o vejo há algumas horas e mesmo assim não tiro da cabeça a visão decadente daqueles olhos. Não vive... Benedict não vive. Imagine não viver. Assim vivo Benedict.
"... there's no reason to hide..."
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