AUTHOR: Marcos Oliveira TITLE: 8/29/2006 08:26:23 PM DATE: 8/29/2006 08:26:23 PM CATEGORY: Nenhum —– BODY: Confissões de um assassino - Parte V


trechos de um velho diário


"Quando saí do restaurante não esperava vê-la. Duas horas adiantada...
(...)

... é bem verdade que poderia impedi-la de entrar. Repeti isso dezenas de vezes vislumbrando o dançar dos garçons pelo lado de fora. As chamas e os garçons dançavam ao som daquele tango distante.
(...)

... mas estava frio também. E dizem que as sombras congelam nossas almas. Será por isso que eu não morri ainda? Por andar pelas sombras e não ter uma alma para ser congelada? Perguntas sem respostas, com certeza. E eles estavam de saída.
(...)

... realmente não é inteligente caminhar pelas ruas tão assim... tão bêbados e tão falantes e tão desesperados. Sim, porque felicidade é um estranho desespero. Muito me admira ela estar com ele. Só mesmo estando desesperada. Estranhamente desesperada. Não suporto sentimentos estranhos e...
(...)

... quando se escuta o estalo esmigalhado é porque o pescoço está mesmo quebrado. Larguei-o. Olhei ao redor e a dona dos olhos verdes corria para o fim da rua escura. Elas sempre escolhem o escuro. Choro, amor, medo, morte... Para tudo escolhem o escuro das...
(...)

... eu quis pedir desculpas. Juro que quis pedir desculpas. O pequeno punhal ainda girava no seu estômago e minha mão esquerda ainda abafava os sons de sua boca quando duas lágrimas desceram simultâneas das lindas esmeraldas. Ela escorregou as costas pelo muro e eu...
(...)

... não há lua que me faça esquecer aqueles olhos. Não pelo verde inigualável, mas pelas lágrimas. Ninguém nunca havia chorado olhando para mim daquele jeito. Acho que gosto de sofrer. Só amo-as instantes antes de perdê-las." —– ——– AUTHOR: Marcos Oliveira TITLE: 8/26/2006 09:27:51 PM DATE: 8/26/2006 09:27:51 PM CATEGORY: Nenhum —– BODY: no name post


Ontem
sonhei
que
você
caiu
num pote
cheio de prata derretida
e virou
minha estátua favorita. —– ——– AUTHOR: Marcos Oliveira TITLE: 8/19/2006 11:03:25 PM DATE: 8/19/2006 11:03:25 PM CATEGORY: Nenhum —– BODY: pra não dizer que não falei das morenas


Subjetivo porque, como já disse uma vez, é a melhor válvula de escape. E já que estão avisados, nem tentem entender. Ou tentem. Especulem. Aliás, especulem. Bobos são aqueles que tentam entender o que não precisa ser entendido. Nem você entende, não é? Nunca entende. Prefere deixar subentendidamente explícito. Só prefere. O mais difícil, o mais longe, o mais seco, o mais custoso. Então... pense em melancias. Hálito de melancia. Eu amo melancia. Amo. Combine com lábios convidativos que o amor passa a ser chave para o encanto. Mas é difícil, é longe, é seco. Custoso.

Ironias à parte, o não saber dançar é desculpa. Desculpa para coisas mais longas e pedidos mais adocicados. Sim, porque o doce mais doce faz parte. É quase como, se já não for, uma característica imprecisa da sua precisão desnorteante. E por falar em norte, o meu agora quebra meio que para o oeste. Daí nasce a especulação. A exclamação pelo achar que entendeu. E eu já falei uma vez, daquela vez que eu declarava amor ao mármore de Carrara, que achismos são perigosos. Sempre muito perigosos. Sou contra qualquer ismo, e nem curto a vida adoidado. Todavia nem conheço todos os ismos. Pelo menos acho. E achismos são perigosos. E eu nem quero falar sobre isso. Ah, claro... a dança. O não saber dançar. Me responda... para quê prometer ensinar? Creio que quando os dois não sabem, é preferível apenas ficar abraçado. Abraçar é fácil.

Danças e achismos e ironias me lembram beijos secretos em noites escuras. E cachorros e pais malvados. E fotos e selos inúteis. Imagine só... selos inúteis. Desenhos que saltam das paredes para irem para o papel e voltarem para as paredes. Uma confusão que só você, talvez, entenda. E eu sei que você não sabe dançar. Eu sei que é seco, eu sei que é oeste. Sei que é custoso e fotográfico. Então, abraça. É preferível. Porque te ver é como morrer de amor aos dez anos de idade. —– ——– AUTHOR: Marcos Oliveira TITLE: 8/15/2006 12:18:42 AM DATE: 8/15/2006 12:18:42 AM CATEGORY: Nenhum —– BODY:
—– ——– AUTHOR: Marcos Oliveira TITLE: 8/11/2006 01:37:30 PM DATE: 8/11/2006 01:37:30 PM CATEGORY: Nenhum —– BODY: à mão livre

meu e dele

Cada folha em pedaços:
mais uma vida que vai a torto e a esmo
eu mesmo preferia viver em papel
ou ser parte de uma nuvem no céu
ser o azul do azul refletido no fundo de águas
ter em mim o som de chuva
um turbilhão
um vão entre partes de mim e partes
das partes das partes
de um momento vivido
eu, querendo ser querido
uma junta, um par
cores de um ano corrido
um anel, um par
coluna quente de ar
um furacão
seu
vivente de papel
presente de pincel
pintado em aquarela
azul do azul mais azul
refletido no fundo de águas
de chuvas com meus sons
um vão entre partes suas
suas
eu
querendo ser
seu
par
querida. —– ——– AUTHOR: Marcos Oliveira TITLE: 8/7/2006 05:15:44 PM DATE: 8/7/2006 05:15:44 PM CATEGORY: Nenhum —– BODY: das verdades eternas


A ignorância é uma dádiva concedida pelos inteligentes. —– ——– AUTHOR: Marcos Oliveira TITLE: 8/3/2006 01:18:08 PM DATE: 8/3/2006 01:18:08 PM CATEGORY: Nenhum —– BODY: Só mais uma de amor

Meu e dela. Dela e meu.

à Mari

Espiou os ponteiros do relógio. Ele não vem mais. Suspirou resignada, girando a lapiseira entre os dedos. É de uma beleza plástica, recordou-se, como quem tentasse ferir os próprios sentimentos. Desenhou uma flor no canto superior da página, primeiro o miolo, depois as pétalas. Parece coisa de criança. Mas é isso que ele pensa que sou, uma criança.

Do outro lado da cidade ele olhava para o relógio no alto da catedral. Não dava mesmo para chegar. No som do carro, Simply Red. Lá fora, a chuva e o congestionamento. Tudo trazia a lembrança daqueles olhos moleques. Olhou os livros no banco de trás e sorriu. Há algumas semanas começara a sentir-se sortudo por ela não compreender a dança dos números. E no vidro embaçado pela umidade escreveu duas letras. Duas iniciais. Ironicamente, uma gota escorreu entre as duas. Ela tem olhos moleques. Moleques.

Pensou nos seus óculos intelectuais. Tem um ar de adulto. Riu de si mesma. Ele é um adulto. Como era irônico a matemática tê-los unido.

O trânsito não ajudava. Deveria ligar e pedir desculpas. Mas, escutar a voz dela seria golpe de misericórdia. Tinha a certeza de que não disfarçaria a tristeza. A voz triste. A voz que ela disse ser autiva e carinhosa.

Sabia que às vezes era atrevida demais nas suas palavras. "Mas existem coisas que não posso controlar". Apoiou a cabeça em uma das mãos. Por que demorava tanto para chegar? Estremeceu ao pensar que algo poderia ter acontecido. Fez menção de discar seu número no celular apesar de não querer soar desesperada.

Finalmente uma via mais livre. Desligou o som, porque todas as músicas lembravam aquele broto de rosa. O perfume. O sorriso metálico. E, céus... como ela podia deixá-lo tão flutuante. A notável habilidade com as palavras? A meiguice? Queria-a. Ali. A metade do caminho parecia muito maior do que o próprio caminho. Sou o professor... ela a aluna...

Eram professor e aluna. Mesmo assim, não julgava que isso fosse um grande empecilho. Acreditava no amor. E ele a deixava meio sem ar, não sabia explicar, talvez fosse o jeito de falar ou o cheiro de homem. Sorriu. Como uma menina boba e apaixonada sorri.

Passou pela escola e lembrou-se de quando a viu pela primeira vez. Cabelos soltos, olhos vivos e sorriso tímido. Daqueles sorrisos que imploram um sorriso de volta. "Professor, era dela que te falei. Não entende nada da última matéria de matemática..." E eram pra ser poucas aulas particulares. Mas viraram uma progressão aritmética...

Era fantástico como professor. Como professor e como todo o resto. Achara-o tão distinto naquela primeira aula. Apegara-se a ele rapidamente. Gostava da maneira bondosa com que a olhava quando conseguia fazer o exercícios da forma correta.

Surpreendia-se com ela. Chegava a achar que ela sabia mais do que realmente mostrava saber. Culpou-a, de início, pelos encontros extras. Mas viu que o culpado era mesmo seu coração há muito não amado. Amor. Aquela aluna, garota... mulher. Amor. Estava chegando e ainda não sabia o que dizer.

Então ela inventava dúvidas que não tinha de vez em quando. Queria vê-lo, estar ao seu lado. Não era nenhum crime. Torceu um fio de cabelo, nervosa. Teria que disfarçar sua ansiedade. "Se ele vier acho que vou abraçá-lo tão forte que é capaz que ele quebre". Depois repreendeu-se. Era insegura demais para fazê-lo. E se não viesse?

Lá estava a casa dela. Vinte metros, quinze, dez... O que dizer? Ela estaria com raiva? Segurou o volante com força tentando retirar energia de algum lugar. Estava em frente e viu a luz do quarto ligada. A rua estava vazia e a chuva caía mais forte. O caminho até o portão foi angustiante. "Eu quero abraçá-la. Querê-la".

A chuva fazia com que lembrasse dele. Tudo fazia com que lembrasse dele. Fechou os olhos e tentou imaginar como seria tocá-lo. Teve a impressão de ouvir a campainha tocar. Talvez fosse a da casa vizinha. Mergulhou fundo em seu devaneio.

Odiava ensaios e estava ensaiando um sorriso amarelo. Tocou a campanhia outra vez. Amor. Os pingos d'água escorriam do cabelo até chegar ao queixo. Aluna. Desculpa... o trânsito, a chuva. Menina. Tocou a campanhia novamente. Estava apreensivo, céus! Mulher. Amor. Querê-la.

Desceu as escadas correndo. Recompôs-se antes de alcançar a maçaneta, o coração disparado. Respirou fundo. O que iria dizer? Que estava preocupada. Que o amava. Não. Diria entre. Isso mesmo. Entre na minha casa, no meu coração, na minha alma.

Vê-la anestesiou cada músculo de seu corpo. Não sabia se sorria, se entrava, se abraçava. Os olhos daquela pequena eram ainda mais bonitos quando estava fora do uniforme escolar. Aliás, ela era bonita sendo ela. Parecia cena de filme e ele jurava escutar alguma música por entre as gotas de chuva. E de todas as coisas que ele poderia dizer, disse a mais idiota: Está chovendo.

Ela riu. simplesmente riu. Sabia que estava chovendo, era evidente. Poderia ter dito que sim, estava de fato chovendo, num tom solene e maduro. Mas não resistira. E ele estava tão bonito, os cabelos molhados.

Ele achava aquele sorriso maravilhoso. Perfeito. Desenho dos deuses. Foi então que percebeu o erro. Deixara os livros no carro. Deixou o que o trouxera ali no carro. Teria sido proposital? Inconscientemente proposital? A grande verdade era que ele não queria ser professor naquele dia.

Estava de mãos abanando. Não quis saber o porquê. Tentava se convencer de que o que estava pensando não passava de uma de suas diversas alucinações. Ele não esquecera os livros propositalmente. Não poderia ser. O que sentia era platônico. Tinha certeza. Desviou os olhos de sua boca. Não agora. Puxou-o para dentro e fechou a porta.

Seria estupidez pedir para voltar. Estupidez para ele. O toque dela levando-o para onde de costume ficavam era sublime. Ela flutuava, não andava. Flutuava. Havia um silêncio rasgando o ar. É culpa minha. Quanta bobagem achar que ela veria algo de especial num professor. Olhos, boca... Aluna, mas, olhos... boca.

Parou no segundo degrau e virou-se para olhá-lo. Estavam da mesma altura agora. Quis tanto enroscar os braços em seu pescoço e beijá-lo. Que gosto teria? Descontrole total. Sentiu-se no céu. Sua mão ainda estava na dele.

Os olhos dela agora tinham um poder incomparável. Eram ímãs. Pareciam que enxergavam além. Será que ela lia seus pensamentos? Porque ele pensava em beijá-la. Com amor. Com o amor que sentia correr pelo corpo causado pelas mãos dadas. —– ——–