AUTHOR: Marcos Oliveira TITLE: 4/27/2007 07:59:03 PM DATE: 4/27/2007 07:59:03 PM CATEGORY: Nenhum —– BODY: retro II

Tristitia

Tristeza
Azul.
Para quem nunca viu
em latim
para o bom português.
Traduzindo em palavras
pensamentos soltos
e azuis,
em latim,
para o bom português.
Tristeza
pela sala de vidro
em nossa casa
que não existe.
Azul
da cor do vidro
em latim
para o bom português.
Tristitia.
Tristeza
em latim
traduzindo
para o bom português. —– ——– AUTHOR: Marcos Oliveira TITLE: 4/20/2007 08:46:17 PM DATE: 4/20/2007 08:46:17 PM CATEGORY: Nenhum —– BODY: run for a mango - second chapter


- Corra, menino. Corra. Olha a bola ali. Corre. Você tem que chutar a bola, menino.

Pois, então. Paramos com os meninos em cima do muro, menos o Pedrinho que não sabia subir em muros; as mangas gigantes e vermelhas e a portinhola verde combinando com a cor do muro. Marcos estava eufórico. Por ironia do destino foi o único que permaneceu em cima do muro depois de várias tentativas de arrancar a manga-gigante-vermelha-suculenta atirando pedras. Guguinho desceu e voltou para a rua junto com Pidón, Neto e Bráulio. "Deixa pra lá... os sítios lá da frente têm mais mangas do que aqui. Essa mangueira é muito alta.", resmungou Guguinho enquanto limpava as mãos sujas na calça. Digo que só o Marcos permaneceu em cima do muro porque o desafio colocado depois da fala do Guguinho era tudo o que o Olhão precisava para saltar dentro do terreno. "Que alta o quê! Vou pegar essa manga e vai ser agora!".

O vento farvalhava as folhas de todas as árvores da rua. Marcos estava em dúvida se saltava para ajudar Olhão a pegar a fruta escarlate ou se corria atrás dos outros amigos. Afinal, quanto mais mangas, melhor. E ficar para trás nunca era bom. E ficar para trás, com o Olhão, era pior ainda. Porque teve aquela vez casa abandonada quando Matheus e Guguinho ficaram pra trás com ele, mas essa é outra história. Voltemos ao menino no muro que ponderava. As mangas por vir ou a gigante a alguns galhos do chão? Todavia, lembram da portinhola verde? A que combinava com o muro? Foi mesmo ironia do destino o Marcos ter continuado ali em cima.

- Corra, menino. Corra. Olha a bola ali. Corre. Você tem que chutar a bola, menino.

O terreno da mangueira solitária, como ficou conhecido depois, devia ter alguns poucos metros quadrados. Eram três muros: O que dava pra rua onde guerrearam com as mamonas, o que dava para uma rua lateral e o que tinha a portinhola verde e dava para o resto do sítio. Bem estranha a construção, por sinal. E o Olhão estava ali, contornando a imponente mangueira e tocando as cascas do tronco, buscando o lugar mais fácil para subir. "Merda... merda! Desce aqui, Marcos! Me dá pezinho! Só até eu conseguir alcançar aquele galho", e apontava pra primeira ramificação. "Nem... aí você pega a grandona e me dá uma pequena.", disse o Marcos já virando o corpo para pular para a rua. O Olhão já ia insistir, ou xingar, ou fazer qualquer chantagem que costumava fazer, no entanto um baque seco fez com que os dois meninos olhassem para o muro da portinhola. É... a portinhola verde que combinava com o muro.

- Corra, menino. Corra. Olha a bola ali. Corre. Você tem que chutar a bola, menino.

"Puta merda! Corre, Olhão!, esgoelou Marcos, quase caindo ao abaixar para esticar o braço ao amigo. "Aaaaaahh!", gritou o Olhão, já correndo em direção ao muro.

- Corra, menino. Corra. Olha a bola ali. Corre. Você tem que chutar a bola, menino.

A portinhola era pequenina. Eles deviam ter desconfiado. A portinhola estava meio aberta. Eles deviam ter desconfiado. Mas como pensar nesses coisas quando uma mangueira daquela oferece tantas jóias vermelhas? Duvido que alguém desconfiasse. "Me puxa! Me puxa! Aaaaaahhh!!!", berrava o coitado. "Tô puxando, tô puxando! Ajuda, ué!!!", gritava o outro coitado. Duvido que passaria pela cabeça de alguém que aquela portinhola era única e exclusivamente para aquilo. Duvido. Havia manga, oras.

Os dois arfavam e tentavam não cair para lá. As folhas continuavam a dançar com o típico vento quente das tardes de Janeiro. Se olhavam e nem era preciso ter ouvidos para escutar o que os olhos diziam:"Tu ia morrer, véi!", "Eu sei, eu sei!". Os outros já iam longe. Longe o bastante. Nem perceberam a gritaria. "Anda... vamos ficar pra trás.", sugeriu bem incisivamente o Marcos. Sabia que era bem capaz do Olhão ter a absurda idéia de voltar pra pegar a manga. "Tá...", resmungou o Olhão já pulando pra rua. Um alívio de certa forma.

Os dois caminharam apressados e mudos. Encontraram com o resto dos meninos antes mesmo do Clube do Progresso. Estavam resolvendo se quebravam o caminho pra esquerda ou se entravam no Clube pra pegar coquinhos. "Tudo que vier é lucro, meu filho!", dizia o Bráulio quando chegaram mais perto. "Oba! Cadê, cadê a mangona?", veio o Pidón todo feliz revistando os dois retardatários com os olhos. Olhão estava visivelmente com raiva e quebrou pra esquerda. Nem deu trela para a pergunta.

- Corra, menino. Corra. Olha a bola ali. Corre. Você tem que chutar a bola, menino.

Estava decidido. Nada de coquinhos naquele dia. O Olhão queria mesmo uma manga. Marcos até pensou em dizer um costumeiro "Relaxa, cara...", porque os outros estavam até meio assustados. Não... estavam mais para intrigados do que para assustados com a aquele menino de pé esquerdo calçado e o direito pisando com a meia branca no asfalto. "Merda! Juro que mato! Merda! Merda de cachorro. Arrancou meu tênis!", repetia. Claro que o Guguinho colocava a mão na barriga e ria sob ameaças sérias de alguns socos. Mas logo contagiou todo mundo. Até o Olhão fez piada de como iria matar o cachorro. Talvez, inconscientemente, todos sabiam que se uma coisa não podia faltar era aventura. E isso eles tinham. E teriam ainda mais. "Ei, ei! Olha lá! Piscina!", gritou o Neto apontando para uma rua em declive. Todos se olharam. Todos sorriram. Cachorros e risos e socos já eram coisas do passado. Correram, claro. Claro que correram. Afinal, era verão...

- Corra, menino. Corra. Olha a bola ali. Corre. Você tem que chutar a bola, menino.

to be continued —– ——– AUTHOR: Marcos Oliveira TITLE: 4/13/2007 10:33:03 PM DATE: 4/13/2007 10:33:03 PM CATEGORY: Nenhum —– BODY: retro


E pra quem não sabe:
A saudade é uma loira cruel.
Tem olhos verdes de ciúme,
Que espreitam e atacam,
Mordem e fazem doer. —– ——– AUTHOR: Marcos Oliveira TITLE: 4/5/2007 12:13:04 AM DATE: 4/5/2007 12:13:04 AM CATEGORY: Nenhum —– BODY: warm


I

Feliz, você?
Sim, será?
Será se eu?
Você, feliz?
Devo, verá?
Pedir, irei?
Vi e ver?

II

Ah, é física
e físico e gelo
da sua pele
salvará?

III

Quem foi
quem disse
que
quem foi
quem disse?

IV

Diz, culpa?
Por, tudo?
Sal, dar demais?
Devo, ser você?

V

Vem, ver?
Opor, se a mim?
De frente, eu?
Acabei, já você? —– ——–