AUTHOR: Marcos Oliveira TITLE: 8/28/2007 09:09:32 PM DATE: 8/28/2007 09:09:32 PM CATEGORY: Nenhum —– BODY: where/why/when/how


Sinto que devo escrever pra sempre, mas não sei por onde começar. E há muitas histórias guardadas nas gavetas. —– ——– AUTHOR: Marcos Oliveira TITLE: 8/21/2007 09:17:53 PM DATE: 8/21/2007 09:17:53 PM CATEGORY: Nenhum —– BODY: retro VI


Mulheres cruzam pernas quando falam

Sim, sim. Quando elas falam, cruzam as pernas. Tão certo quanto a chuva que cai periódica nesse mês maldito. Ou quanto é bom deixar ela cair e levar o que nem você mesmo sabe se deve ser levado. O engraçado é adivinhar qual das pernas vai ficar por cima. Até para o melhor entendedor do assunto é difícil saber. Ora, quando se tenta prestar atenção nas pernas, elas começam a falar. Sim, pois mulheres cruzam as pernas quando falam. É lei.

Já se viu preso entre dedos ágeis? O esmalte chama ou não chama atenção? Pior é olhar pra baixo. Lá estão as pernas cruzadas. Tão nervosas quanto você ao tentar fugir. Mas o esmalte derrete, não é mesmo? Você só lembra das palavras do homem velho depois de já ter dormido três dias no meio daquele vermelho-sangue. "Está escrito nas paredes sagradas do quarto daquele que não desistiu: Vai ser para sempre." É inegável e impossível. Não há como desmanchar e muito menos como derrubar as paredes. Mesmo enquanto se dorme elas irão cruzar as pernas e falar. E falam, falam. Xingam e choram por suas limitações e sonhos imbecis. Talvez você nem queira descobrir que o esmalte é só um detalhe, não é?

Ouvi falar da branca timidez. Sim, mas ela cruza as pernas antes de falar. Fica assim, diferente de tudo e chora mais por limitações do que por sonhos. Estranhamente fez a lua descer justamente quando as maçãs estavam podres e sua fome crescia mais do que a pilha de atitudes atrasadas. Que tal fechar as cortinas e deixá-la do lado de fora da cabana? Não, não... o sangue bebemos depois. Só depois da quarta ou quinta cruzada de pernas. Só assim para não sentir frio. Ah, claro. Vai ser assim pra sempre. Não negue, imbecil.

"Ei, ei...? Cadê as flores?" Ora, cadê. Perderam-se há tempos. Abra aquele baú ali, mas não se atreva a olhar para as cortinas. Abra o baú. Vê as flores? Murchas ou não elas estão aí. Veja as fotos e confirme: Elas realmente cruzam as pernas quando falam. Como? Queimar o baú? Nada disso, meu caro. As flores sempre revivem com a medida exata de lágrimas. Na verdade, a Fênix nasceu de flores e lágrimas de uma moça que cruzava mais as pernas do que falava. Essa é a verdade que sempre esconderam. Aceite-a com leves goles do sangue.

Por onde andam os infinitos prateados? Eram lindos. Por onde andam os olhos mudos? Quem eram seus olhos mudos? Eram lindos, os prateados, mas acabam mesmo naquele baú. Não me diga o que fazer, nem o que falar. Anda, vamos pra casa agora e dormir contando gotas de chuva na janela. Cruze as pernas depois... Por favor.

Ei, olha só o que eu achei. Nada de cavalos-marinhos. Pior. Tatuagens que amam. —– ——– AUTHOR: Marcos Oliveira TITLE: 8/10/2007 08:09:12 AM DATE: 8/10/2007 08:09:12 AM CATEGORY: Nenhum —– BODY: pilot


- ... e a escola é sem dúvida a melhor, Sra. Kwon. A melhor de todo o arquipélago. - dizia o homenzinho de terno para uma senhora oriental e séria acompanhada do entediado filho. - Uma instituição renomada. Só para garotos. O estudo como rotina e único objetivo. Do jeito que tem que ser.

- Hum...- e folheava os panfletos sem pressa.

- Como pode ver, - e o homenzinho levantou-se da poltrona preta para contornar a mesa - o, ham, digamos... incômodo histórico de seu filho, Sra. Kwon, não será problema para a Salvatore Giuliano. É sem dúvida a melhor, Sra. Kwon. A melhor...

Naquele instante a secretária de cabelos curtos e óculos grandes e pretos entra na sala do diretor:

- Sr. Fergunson...

- Srta. Mendez... - disse o homenzinho com o semblante de quem não queria ser incomodado.

- Um dos inspetores na linha dois.

O Sr. Fergunson sorriu para a gélida Sra. Kwon e passou um rápido olhar sobre o filho da coreana que parecia estar a caminho da forca. Tirou o fone do gancho e apertou a tecla dois que piscava:

- Fergunson falando... sim, conheço. Sim... - e seu rosto foi se modificando - ... mas como? Oh... que tragédia... que tragédia!... sim, sim. Encontre-o... sim. Traga-o aqui. Sim... que tragédia...

A repetição da palavra tragédia pareceu despertar a curiosidade da Sra. Kwon que agora olhava com atenção para o Sr. Fergunson. Até o rapaz, antes desanimado, estava com os olhos repuxados quase pedindo para que o diretor dissesse o que havia acontecido.

- Algo de errado na escola, Sr. Fergunsou. - adiantou-se a mãe.

- Ham? Não... não... Não na escola. Oh... uma tragédia! Uma tragédia... Mas, creio que acertamos tudo o que devíamos, não é mesmo, Sra.Kwon? - falou o diretor colocando o telefone no lugar e agindo como quem quer encerrar rapidamente uma conversa chata. - Tenho certeza de que Sr. Kin-Soo Kwon irá gostar de nossa escola. Não vai, Jin? - dizia isso e encaminhava os dois para a porta. - A Srta. Mendez vai ajudá-lo a encontrar o quarto e os horários das aulas. Por favor, Srta. Mendez.

Ao fechar a porta teve que secar a testa e tomar um copo d'água para se acalmar. "Péssimo começo de semestre... péssimo...", pensou Fergunson. "Uma debandada de alunos no ano passado. Quando consigo trazer um bom nome pra cá, uma coisa dessas acontece! Oh... céus. Uma tragédia..."

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A Srta. Mendez passava por um dos corredores e, como de costume, era alvo de críticas e brincadeiras dos estudantes que estavam no jardim:

- Essa tá feia, essa também... ih... nenhuma tá prestando, caras... - resmungava o menino deitado na grama olhando para fotos.

- Olha lá! - e apontava para o outro lado do jardim um outro rapaz - Um japonês com a coruja! Cara, um japonês na escola!

- Onde? Pára, cara! Ele é chinês, não vê? - respondeu um outro de cabelo loiro e bagunçado enquanto acendia um cigarro.

- Chinês? Como você sabe a diferença entre um chinês e um japonês? - perguntou o menino ainda deitado na grama com as fotos.

- É simples, cara... você bate o olho, repara bem... aí vê se ele curte mangá ou gosta de plantar arroz. E esse aí, cara... definitivamente plantava arroz. - e deu uma tragada longa no cigarro.

- Que idéia estúpida... - disse o outro rapaz olhando para o oriental tentando aplicar a teoria do amigo.

- Ah... vamos logo antes que a codorna nos veja. Junta essas porcarias aí, fotógrafo. Vou acabar o cigarro aqui e a gente volta pro quarto.

- Só porque eu disse que estão ruins não quer dizer que são porcarias... - reclamou o rapaz que empilhou as fotos e já se levantara.

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Sem pé nem cabeça. —– ——–