AUTHOR: Marcos Oliveira TITLE: 12/23/2007 07:36:51 PM DATE: 12/23/2007 07:36:51 PM CATEGORY: Nenhum —– BODY: xmas


Merry, merry?

E quando o ano mais interessante de sua vida acaba? Aí chove canivete: Tipo os santos e anjos chorando em seu lugar. Ou não. —– ——– AUTHOR: Marcos Oliveira TITLE: 12/8/2007 02:08:28 PM DATE: 12/8/2007 02:08:28 PM CATEGORY: Nenhum —– BODY: first


Filha-de-saí

Não sei ver beleza em carne. Nem adianta tentar me convencer, companheiro. Não sei. Se suas amigas exibem os predicados a torto e direito, caminham dançando e espalham cheiros, isso não me interessa. Não me apetece, meu caro. Não me apetece. E ai de quem cair na estupidez de fazer chacota quanto a isso! Quando mais moço sofri nas mãos dos amigos, mas hoje não, companheiro! Hoje não! E já te digo o porquê.

Vivia eu por aqui mesmo. Não aqui, onde no momento disputamos. A rua onde a vida acontecia, companheiro, nem existe mais! Boa como era, merece mesmo não existir mais pra tomar esse ar de maravilhosa. Lendária! Lá não passava um carro, e se passava, era de boi. Mas não pense que toda essa calmaria era calma! Pois não era! Futebol na rua, no tabuleiro... pega-pega nas árvores e guerra de mamona! E isso é só a nata, companheiro! Só a nata! Hum. Perdoe-me se me empolgo, no entanto é empolgante! Entende? Empolgante! Mas como eu dizia, a rua era lendária. A mais famosa do bairro. Fiquei sabendo que uma atriz de cinema até chegou a morar por ali, mas nunca soube quem. Nunca procurei saber, na verdade. Só tinha olhos para uma mulher: Corina.

A grande maioria das famílias da rua era católica. Aquela coisa de terço, romaria e procissão. Tudo normal. Perdi a conta de quantos quilômetros percorri e quantas horas de sono perdi nessa brincadeira. E o que quero dizer com toda essa ladainha cristã? Quero entrar naquela velha igreja e te falar de Corina. Cantora Corina. Ela era a mais velha de três irmãs e cantava no coral ensaiado pelo Padre Manoel. Linda, companheiro! E não era como essas suas amigas. Não, não era! Corina tinha classe, tinha garbo. Morava na esquina. Não me impressiono se a tal artista de cinema fosse ela. Não que ela fosse uma, mas qualquer pessoa com a mínima noção de beleza a confundiria. Ah, companheiro. Aquilo era mulher!

A primeira vez que vi Corina foi numa apresentação do coral da igreja em minha escola. Apesar da tradição religiosa em minha família, nunca fui chegado. Odiava uma missa como odeio até hoje. Mas depois que conheci aquela voz de pássaro raro fiquei mais assíduo do que os próprios coroinhas do Padre Manoel. Até recebi convites do próprio para virar menino de Jesus. Pura perda de tempo. Eu só pisava na igreja para ver Corina, minha diva magrela das pernas tortas, cantar. E cantava bem, companheiro! Está pensando o quê? Não existe mais talento como aquele, não! Corina se destacava naquele coral. Olhava fixo para o horizonte, respirava fundo e me reapaixonava a cada palavra cantada docemente. Tudo bem que repetia Jesus, Senhor e pecado. Não me importava. Era o que eu, ateu mirim, também repetia toda noite que ia espiá-la pela janela. Perdoava aquela magreza estonteante.

Uma noite, dessas que ia lá espiar, Corina me viu. Talvez não tenha realmente me visto, mas viu que alguém a espiava. Juro, companheiro: A rapariga sorriu! Sorriu! Eu, besta, corri. Corri com o coração querendo pular pela boca. Era tão assíduo naquele jardim quanto era na igreja, mas depois do ocorrido passei a ir com menos freqüência. E quando ia contar para os meus amigos, os que te falei que sofri nas mãos, eles me esfolavam! “Corina parece um sabiá, João! Perna fina e bico longo!”, diziam. “Larga a mão de ser louco e pára de espiar aquele estrupício, João!”, gritavam. Não me importei, como não me importo com suas amigas cheias de carne para mostrar, companheiro. Desposei Corina e até hoje ela não sabe que eu era o moleque a decorar cada uma das pontas de ossos de seus ombros. —– ——–