AUTHOR: Marcos Oliveira TITLE: 2/23/2008 01:46:13 AM DATE: 2/23/2008 01:46:13 AM CATEGORY: Nenhum —– BODY: chasin' and wishin'


- ... mas qual é o grande problema? Conversar consigo mesmo não é um grande problema. Seria um grande problema se você tivesse a estúpida certeza de que está conversando com outra pessoa quando realmente está conversando apenas com você mesmo. É um fato.

- E se eu me sentisse incomodado com isso?

- Com "se eu me sentisse" você está tentando me dizer que se incomoda?

- Não necessariamente.

- Então você se incomoda.

- Não necessariamente. Você se incomodaria?

- Eu não me incomodo.

- Ok. Ok. Digamos que eu me incomode. E daí?

- Oras... se você se incomoda o problema é seu. É perda de tempo se incomodar com isso. Seria algo a se preocupar, sem sombra de dúvidas, se você conversasse com você mesmo achando que está conversando com outra pessoa. Já disse.

- Mas toda a idéia desse tipo de conversa não é tentar parecer que se está conversando com outra pessoa? Digo... você pergunta para si mesmo uma coisa para logo depois responder essa mesma coisa como se fosse outra pessoa, certo?

- Seria estupidez perguntar uma coisa para si mesmo esperando que você respondesse a pergunta que acabou de fazer.

- Mas não é essa a idéia? Responder como outra pessoa?

- Pra ser bastante sincero com você, eu não faço a mínima idéia. Acho que é porque não me incomodo. Acho comum. É como engolir alguma coisa. Você não engole de jeitos diferentes. Apenas engole.

- Eu engulo água de um jeito completamente diferente do jeito que engulo, sei lá, um pedaço de carne.

- Ok. É diferente. Eu queria era exemplificar a mecânica da coisa. Você só engole, entende?

- Hum. Com dificuldade, mas entendo.

- Respirar, então. Excluindo todas as vezes que você precisou de mais oxigênio...

- Como numa corrida atrás do ônibus?

- ... é. Como numa corrida atrás do ônibus. Excluindo todas essas vezes, você respira mecanicamente. É como eu converso comigo mesmo: Mecanicamente.

- Não sei. Não sei. Acho que conversar assim não é algo que possa ser mecânico. Me incomodo ao fazer isso. Não vejo a situação um dia virar mecânica como respirar. Não me vejo não me incomodando com isso.

- Por que você se incomoda tanto com isso?

- É complicado dizer ao certo.

- Como se algo fosse muito simples de se dizer ao certo.

- Eu quero coisas, entende? Não. Na verdade eu não quero coisas. Não o tempo todo. Às vezes quero um livro. Outras quero um filme ou um pedaço de chocolate. Mais livros do que filmes e mais filmes do que chocolate. Mas não quero coisas, entende? É difícil explicar...

- Você gosta mais de filmes do que chocolate. E gosta muito mais de livros do que gosta de filmes. Qual a complicação?

- Você é que está simplificando! Não é a questão do gostar, mas a freqüência do querer. Eu sempre me pego conversando, ou melhor: sempre me pego pedindo a Deus que algo aconteça. Às vezes pedindo que algo não aconteça, é bem verdade. Mas o engraçado é que a satisfação que tenho quando essas súplicas são atendidas é a mesma. Tanto para o acontecer quanto para o não acontecer.

- Mas o que isso tem a ver com você conversar consigo mesmo?

- Sei lá... não é Deus, entende? Sou eu falando pra mim mesmo, repetindo e repetindo e repetindo, o que gostaria ou não que acontecesse.

- Tipo "Deus, eu quero chocolate"?

- Não. É mais para "Por favor. Faça com que isso alguma coisa". Ou "Que ela não alguma coisa". Entende? Muitas vezes.

- Hum.

- Hum...? Hum!?

- Muita gente faz isso, sabia? Principalmente aos Domingos pela manhã.

- E quantas delas conseguem? Porque eu realmente não me lembro das vezes que fiz isso e não fui atendido.

- Ok. Deixa eu ver se entendi. Você pede coisas a Deus. É atendido em todas as coisas que pede e se sente extremamente incomodado por isso. Oras. Você pode pedir para Ele não atender de vez em quando, já que Ele sempre atende e você está insatisfeito com a perfeição.

- Você está caçoando.

- Não. Definitivamente não. Eu estaria caçoando se engrossasse a voz e dissesse: "Bem. Não é Deeeeeus, Deus, sabe? Sou apenas eu repetindo coisas que gostaria que acontecessem. E eu sou atendido em toooodas as vezes. Todas. Epa! Tenho a leve impressão que sou tipo, sabe, Deus."

- Você está caçoando.

- Não seja idiota. Isso é comum.

- Me incomodo. Talvez até por ser algo comum. Algo corriqueiro e que não posso explicar. Me incomodo muito.

- Já leu O Homem dos Dados? "No princípio era o Acaso, e o Acaso estava com Deus, e o Acaso era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas pelo Acaso, e sem ele nada do que foi feito se fez. No Acaso estava a vida, e a vida era a luz dos homens."

- Quer dizer que fui atendido por acaso? Então Deus não existe e tudo o que acontece é por acaso? Ou você acabou de inventar isso ou está caçoando.

- Não. É um livro. De verdade. Quer que eu te empreste? Você gosta de livros.

- É. Eu gosto de livros. Mais do que filmes. E bem mais do que chocolate. —– ——– AUTHOR: Marcos Oliveira TITLE: 2/15/2008 03:05:31 AM DATE: 2/15/2008 03:05:31 AM CATEGORY: Nenhum —– BODY: short


Se algum dia
você e eu,
nós,
eu e você, por algum acaso,
não conversarmos mais,
espero que; muito espero que,
você me conheça outra vez. —– ——– AUTHOR: Marcos Oliveira TITLE: 2/7/2008 02:23:08 AM DATE: 2/7/2008 02:23:08 AM CATEGORY: Nenhum —– BODY: retro IX


Insustentável leveza de ser

Às vezes é bom sumir. Outras vezes é bom ficar calado e deixar as coisas correrem paralelas. Muitas vezes é importantíssimo escutar o toque do celular no meio da noite.

Há dias em que tapas no rosto e lágrimas escassas valem mais do que filme e sorvete em dias de chuva.

De vez em quando não escutar o que não queremos é perfeito. O problema é escutar o que queremos de vez em quando.

Houve um tempo em que o cheiro da pele não mudava e, quando mudou, mudou. Agora têm aqueles dias em que o cheiro volta e dá saudade do filme e do sorvete.

Às vezes é bom conversar. Outras vezes é bom xingar, pedir desculpas e não precisar conversar.

Muitas vezes bate uma solidão estranha. E de forma tão estranha ela também vai embora. Ah... e há dias em que é bom ir embora. Sem tchau, sem beijo. É estranho e, às vezes, necessário.

De vez em quando o nosso quarto fica meio escuro e a gente chora. O problema é quando choramos de vez em quando sem o quarto.

Houve um tempo em que os espelhos nem importavam tanto e, quando começaram a importar, ficou ruim. Agora têm aqueles dias em que o espelho te olha de volta e dá saudade do tchau. Do beijo.

Às vezes é bom apagar os velhos desenhos. Outras vezes é bom abrir as gavetas e reler as velhas marcas de grafite. Muitas vezes é ruim não ter ninguém pra conversar.

Há dias em que é melhor não acordar e/ou sonhar com o dia em que seria bom acordar.

De vez em quando não ser o acompanhante desejado machuca muito. O problema é não ser desejado como acompanhante de vez em quando.

Houve um tempo em que se separavam as músicas pelas pessoas que elas lembravam e, quando isso acabou, perdeu a graça.

Às vezes é bom esquecer. Outras vezes é bom lembrar do que foi bom. Muitas vezes a gente não entende o choro das outras pessoas.

Há dias em que a gente some. Aí, quem sabe, os outros lembram de você.

De vez em quando tudo faz lembrar o que seria muito, muito melhor esquecer. O problema é esquecer de tudo que seria muito, muito bom lembrar de vez em quando.

Houve um tempo em que pensar no recomeço seria pecado e, quando não recomeçou, foi pecado mesmo.

Um minuto, um dia, um mês ou mais. Não importa o tempo que se demora pra enxergar e aceitar certas coisas. O que importa mesmo é não sentir mais falta de andar de mãos dadas. —– ——–