AUTHOR: Marcos Oliveira TITLE: 9/30/2008 09:55:12 PM DATE: 9/30/2008 09:55:12 PM CATEGORY: Nenhum —– BODY: what about you


- E o que diabos você quer dizer com isso?

- Exatamente o que eu quis dizer.

- ...

- Não gosto disso.

- Como?

- Me sinto invadido. Sei lá. Não sou acostumado a deixar o trânsito livre aqui pra dentro.

- Qual é o ponto em se expressar, então? Do que adianta você me dizer determinada coisa se me proíbe de entender?

- Não é como se eu proibisse alguma coisa.

- É claro que é!

- Vê? É disso que não gosto. Você me assusta querendo sempre me entender. Eu não quero ser entendido. Não agora. Não o tempo todo.

- Não sei. Seu medo é de ser entendido o tempo todo ou que eu chegue ao ponto de não precisar perguntar pra compreender?

- Não creio que você chegue ao ponto de me entender assim.

- Se você continuar tão recluso em si mesmo, temo que eu deva concordar.

- É essa a idéia. Talvez.

- Você continuar recluso?

- Não. Fazer com que você concorde.

- Com o quê, meu Deus?

- Com tudo o que eu disser. —– ——– AUTHOR: Marcos Oliveira TITLE: 9/10/2008 02:27:43 AM DATE: 9/10/2008 02:27:43 AM CATEGORY: Nenhum —– BODY: life and love and why


life II



Essa idéia de dividir a vida em Copas do Mundo é ótima, mas tenho problemas quando falo sobre mim. Percebi isso com todos os adiamentos dessa segunda parte e com todas as desculpas que arranjei para não sentar e escrever. “Se você continuar a arrancar as folhas nunca vai chegar no final disso, Marcos. Seja lá o que você estiver escrevendo.” Foi o que eu imaginei que uma colega de curso diria quando olhou pra mim com uma péssima cara depois que rasguei a enésima folha de caderno dias atrás. Senti-me mal com aquilo. Há mais de mês tento dar continuidade a uma idéia que, no início, me pareceu ótima e fácil: Dar motivos. Dar explicações. O problema é que toda vez que tento escrever sobre mim – como na sala sob o olhar da colega assustada – vejo que não é tarefa fácil. A idéia de dar motivos continua ótima, mas a dificuldade de contar sobre mim é custosa.

Hoje no caminho que sempre faço da faculdade até o ponto de ônibus a vontade de continuar a escrever isso aqui veio me remoer de novo. Uma senhora muito simpática conversava com outra senhora não tão simpática assim sobre bailes de carnaval. Vai saber por que elas conversavam sobre bailes de carnaval nesse maldito Setembro. Talvez a conversa delas tivesse se iniciado por causa da filha da vizinha da senhora simpática que está esperando o primeiro filho para o mês que vem. Até imagino o diálogo: “Ana Adélia está imensa, Leonor. È pra mês que vem o menino”, diria a senhora simpática.”É filho de carnaval, Maria. Ana Adélia nunca teve jeito. Aí o resultado”, responderia a senhora não tão simpática. Bem. Elas até que poderiam ter iniciado o papo assim. Senhoras falam essas coisas umas com as outras enquanto caminham por aí. Mas como só peguei o final da conversa, ficaremos sem saber se foi por causa do sempre certo baby boom de Outubro ou se foi por qualquer outro motivo esdrúxulo que elas inventaram falar sobre carnaval.

Quando cheguei ao ponto já estava por demais intrigado por causa da conversa das duas. Eu definitivamente não costumo prestar muita atenção ao que os outros falam. Não assim, quase perseguindo e querendo não perder nenhuma fala. E qual não foi a última coisa que escutei da boca da senhora não tão simpática e que me motivou a escrever hoje: Clóvis Bornay. Foi ouvir o nome e sentei no banco. Elas devem ter se sentido aliviadas, porque tenho a leve impressão de que por duas vezes olharam pra trás meio desconfiadas. Mas, oras. Clóvis Bornay! Elas falavam de bailes e concursos de fantasias e citaram o saudoso Bornay. É incrivelmente a primeira lembrança que tenho do início dos anos 90. Clóvis Bornay. Eu fiquei tão extasiado que repensei como contar as coisas por aqui. De jeito nenhum que vou continuar como estava fazendo na última parte. Muito difícil pro meu gosto. Sei lá. Acho que a nostalgia só faz bem em pequenas doses. Pequeníssimas.

Na primeira parte dessa coisa toda eu lembrei e detalhei um bocado de memórias e quando fui tentar refazer isso pra década de 90 não consegui. Acho que depois que a Alemanha levou a taça eu meio que lembro de coisas demais e simplesmente não sei elencar o que valeria a pena dizer. Tudo remete a tudo, entendem? Clóvis Bornay, por exemplo. Eu e meu irmão costumávamos assistir a muitos concursos de fantasias. E presença garantida em cada um deles era o Bornay. Posso até dizer que torcíamos para ele vencer. E foi engraçado escutar as duas senhoras falando sobre ele, porque me fez chegar em casa e procurar saber por onde anda Clóvis Bornay. Descobri que desde o ano de 2005 ele anda – fantasiado, quem sabe – pelo vale frio e obscuro da morte. Descobri também que ele era um carnavalesco respeitado e não só um cara que todo ano figurava em salões carregando quilos e mais quilos de penas e panos. Sei lá. Não estava preparado pra saber disso. Nostalgia é uma faca de dois gumes. É uma faca, pois a gente não pára pra pensar que as coisas eram como eram e hoje são como são. Não adianta eu querer repetir as risadas que dava dos enormes nomes das fantasias do Bornay. Não adianta querer jogar Street Fighter II com a mesma cabeça fértil e infantil daquelas tardes estranhamente mais amareladas. Não adianta brincar de pega-pega com as meninas no recreio e fingir que não considerava cada uma delas como minha namorada. Não adianta querer ser um Cavaleiro do Zodíaco. Não adianta querer uma casa na árvore. Não adianta querer jogar bola com os meninos mais velhos da rua e copiar aquele gol de bicicleta do Barranques no asfalto. Não adianta querer reviver o meu encantamento com cada jogo da Copa de 94 e finalmente saber quem era Romário. E Bebeto. E Taffarel. Nada disso adianta. Nada, porque simplesmente não dá. É a mesma lógica do não apagar o que escrevo: a vida não deixa você voltar. Fez, então está feito. Por isso é bom tirar fotos, ter boa memória, criar diários. É bom pra se cortar com a faca nostálgica.

Olhando pra trás e lembrando dessa década de tetracampeonato mundial consigo realizar o quanto as coisas mudaram pra mim. Aprendi a diferença entre um brinquedo caro e um pacote de cigarros barato, mesmo que custassem a mesma coisa: R$17,80. Aprendi que pessoas morrem mesmo sem a minha autorização e mesmo usando um capacete amarelo. Aprendi que na África do Sul há brancos e Nelson Mandela é negro. Aprendi que jogar bola descalço é uma das melhores coisas do mundo. Aprendi a temer e adorar discos-voadores. Aprendi que pessoas que não têm terra podem morrer por causa da terra dos outros no Pará. Aprendi que aviões caem e que é extremamente idiota achar que cantores vão sobreviver só por minha vontade. Aprendi que computadores são bem legais. Aprendi que as meninas na escola gostam de quem elas não vão amar. Aprendi que a escola fica muito séria se você não souber lidar com as coisas. Principalmente com as meninas. Aprendi que eu chorava mais do que as outras pessoas. Aprendi que mesmo sendo o melhor, qualquer um pode ter uma convulsão em Paris. Ah, Paris em 98... Quando se tem 12 anos e se aprende o tanto de coisas que aprendi ali em cima, você espera que o Brasil ganhe outra Copa do Mundo. Mas não adianta só querer para que as coisas se ajeitem ou ocorram como queremos. Foi o que Bornay morto acabou me ensinando.

continua... —– ——–