AUTHOR: Marcos Oliveira TITLE: 10/21/2008 06:57:51 PM DATE: 10/21/2008 06:57:51 PM CATEGORY: Nenhum —– BODY: you were always invencible in my eyes, but


Tudo começa com uma bala penetrando a pele suave e branca da testa de alguém que definitivamente não deveria estar apontando uma arma contra a própria cabeça. Para mim, pelo menos, ela não deveria estar apontando uma arma contra a própria cabeça. Eu não sei como ela achou a arma. Eu não sei como ela planejou isso. Eu não sei se ela fechou os olhos antes de atirar. Não faço a menor idéia de qual foi o último pensamento daquela menina antes da bala atravessar seu cérebro numa diagonal perfeita. Talvez ela tenha repassado os motivos de fazer algo assim. Tipo"deixa eu constatar novamente que, sim, devo fulminar com minha existência por isso e por aquilo outro". Motivos. As pessoas têm motivos e estouram os próprios miolos. Acostumem-se.

Digamos que o começo dessa história cruze um pouco com parte da minha história. Digamos que a menina que definitivamente não deveria estar apontando uma arma conta a própria cabeça e, mesmo assim, aponta e atira contra o próprio encéfalo, seja uma amiga minha. Uma grande amiga. Símbolo e um dos pilares de minha infância. O que eu faço? O que eu supostamente devo sentir no momento exato em que a arma cai de um lado e pouco tempo depois a menina encontra o pé da cama de casal dos pais, manchando de vermelho o lençol favorito da mãe antes de se estatelar no chão? Qual o tipo de merda eu devo pensar nesse exato momento? Sim. Porque com certeza é em merda que você está pensando quando esse tipo de coisa acontece. Você não tem culpa. Ninguém espera que alguém como ela faça uma coisa dessas. É aceitável que você esteja pensando em qualquer outro tipo de coisa, menos em"será que ela está prestes a puxar o gatilho de uma arma?". Mas acontece. Aliás, aconteceu. E por mais que eu me esforce, por mais que eu me esforce mesmo, não consigo lembrar o que estava fazendo ou pensando quando minha amiga estava fazendo e pensando o que não deveria.

Quando perdemos o chão, quando puxam o nosso tapete e estamos no ar, há um singular momento de tensão. Um frio na barriga que dura o tempo exato entre perceber que não há no que segurar e a certeza de que você vai cair. Eu estou em slowmotion na certeza do cair. Estou ali. Quase estático no ar. O frio na barriga se confunde com um imenso vazio e eu estou ali quase estático no ar. Não sei quando vou começar a cair. Parece que nunca. Vou lembrar dela e da mancha de sangue por toda a eternidade de ficar quase estático no ar. Enquanto estou ali, com os olhos vidrados em não sei o quê, boquiaberto e sem cair, me vejo usando preto. De repente. Simples assim. Ora se toma chuva e se toma néctar de pêssego, ora ficamos quase estáticos no ar vestidos de preto e com olhos marejados. Os minutos se arrastam como se carregassem o peso de tudo. E tudo é tudo mesmo.

Vestido de preto e ainda sem tocar o chão começo a apontar dedos. Quero culpados. Quero chutar alguém. Quero esmagar a garganta de alguém. Aí vem aquela velha sensação que tenho em todos os velórios que participei em minha vida: sempre duvido que a pessoa dona do caixão está morta. Na verdade eu não sei se participamos de velórios ou se somente presenciamos velórios. Não sei me portar em velórios. Não sei o que fazer. Acho que a única coisa que sei fazer é ir até o esquife e duvidar. Penso comigo mesmo: "Se eu pedir mentalmente, como numa conversa, acho que ela abrirá os olhos. Não. Eu tenho certeza que ela abrirá". Até faço o trabalho mental, mas elas nunca abrem os olhos. Nunca voltam a respirar. Convenço-me de que apenas não sei quais são as palavras certas. Que talvez um dia eu aprenda. Só que a mancha de sangue não sai da minha cabeça. Insisto no esforço mental. "Levanta, desgraçada. Respira, desgraçada. Sorria, desgraçada!". É ridículo. Sinto-me ridículo. É ridículo me puxarem pelo braço como se eu não conseguisse sair dali da frente. Como se a qualquer momento eu fosse fazer alguma cena ou sei lá. Sei lá. Afasto o braço que puxa o meu e finalmente a primeira lágrima aparece. Ela não escorre, mas explode por causa do movimento brusco que acabo de fazer. Transforma-se em gotículas. Não sei se enxugo. Porque enxugar é bobagem. É só a primeira de todas. A primeira é a que puxa a fila.

Ninguém gosta de enterrar ninguém. Acho até que enterrar um inimigo deve ser algo ruim. Você perde seu antagonista. Eu gosto de antagonistas. Mas com inimigos a relação é direta e simples. E quando você não sabe o que perdeu? E quando não tem dimensão do que perdeu? Eu não sei o que perdi quando aquela bala entrou. Eu sei que quando ela saiu o que eu já tinha se transformou. Minha infância ficou cinza. Boa parte dela ficou cinza. É como se algumas lembranças agora tivessem um apêndice nos arquivos. Um obituário num papel bege e feio. Cinza e bege agora são cores reinantes em boa parte da minha infância. E eu vejo todo o processo de pintura desse novo esquema de cores. É lento. Lento como o meu cair vazio e elegante e preto. A pergunta que surge é: O que diabos eu vou fazer com esse mais do mesmo reformulado e feio agora?

Às 3:48 da manhã chego em casa (ainda caindo vagarosamente) e leio pequenas linhas de apoio. Você sabe confortar? Mas antes de dormir eu ainda não sabia o que fazer com o mais do mesmo. Não tiro o preto. Ele parece querer ficar por muito mais tempo. Deixo estar. Durmo e sonho com coisas ruins. Nada de manchas e choros, mas coisas muito ruins. Braços se quebram como madeira barata e eu acordo muitas vezes durante o resto da madrugada e da manhã. Estou com sede de não sei o quê. De conforto, acho. Quero me afogar nesse calor morno do conforto de alguém. No seu. Mas eu não tenho força. Simplesmente não tenho. Não acredito em nada que vá valer a pena. Descubro que não quero. Descubro que negar é minha novacaína. Eu quero o conforto, mas não agora. Não de repente. Não vou saber lidar com o conforto. Não sei ser vulnerável. Não sei chorar. Não sei dar motivos para minhas negações. Quem entenderia? Seria pretensão querer que você ou você compreendesse. Ninguém entende.

Na minha ingênua maneira de pensar, achei que seria plausível a todas as pessoas que eu não quisesse o mundo por um tempo. Nunca chorei tanto em minha vida. Nunca fiquei tanto tempo sem falar em toda a minha vida. Nunca fui tão incompreendido em toda minha vida. Acho que é culpa da minha concessivadade. Mas eu não gostei nem um pouco de pela primeira vez querer parar, sentar e chorar; e tudo me mandar continuar, levantar e assumir outro papel que não o de coitado. Eu queria ser o coitado. Aquele tiro matou minha amiga e matou um pouco de mim também. É real isso que sinto. É real a dor do tiro. Mas quando você quer mais mãos é que você enxerga mais umbigos. Mais imediatismos e egoísmos. Não há lugar para choros em olhos concessivos. Meu papel é sempre dar um jeito. Sempre ter a paciência. Sempre ter a habilidade de consertar as coisas. Nada de rebeldias, Marcos. Seja o que você é. Engula tudo o que você engoliu sem reclamar. É mais fácil e é o que você faz de melhor.

Tudo começa com uma bala penetrando a pele suave e branca da testa de alguém que definitivamente não deveria estar apontando uma arma para a própria cabeça. Tudo termina com a vida vomitando ódio gratuito em meu colo. Ódio da humanidade, ódio do seu ego de plástico. Ódio da minha necessidade de compreensão. Isso me fez o homem mais triste da Terra durante três longuíssimos dias. Isso me machucou e corroeu durante três longuíssimos dias. Mas não mais. Nunca mais vou falar sobre esse assunto. Nunca mais vou ficar à mercê de alguém. Que venha esse alguém com uma bala na cabeça ou desespero no coração. Nunca mais.

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